Sobre a Demonstração do Resultado Abrangente

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O que é a DRA (CPC 26), o que entra nos outros resultados abrangentes, o que é reclassificado para a DRE e como ler a DRA da Petrobras.

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Quando estudamos contabilidade, normalmente focamos muito na Demonstração do Resultado do Exercício (DRE). Ela mostra o lucro ou prejuízo da empresa em determinado período.

Mas existe um problema: Nem toda variação importante do patrimônio da empresa passa pela DRE. E foi justamente por isso que surgiu a Demonstração do Resultado Abrangente (DRA).

A DRA complementa a DRE e mostra ganhos e perdas que afetam o patrimônio líquido, mas que as normas contábeis mandam registrar fora do lucro líquido do período.

O que é a Demonstração do Resultado Abrangente?

A Demonstração do Resultado Abrangente é um relatório contábil que evidencia o resultado líquido do exercício (o lucro ou prejuízo da DRE) e os outros resultados abrangentes (ORA).

Ou seja:

\[ \text{Resultado Abrangente}=\text{Lucro Líquido}+\text{Outros Resultados Abrangentes} \]

O resultado abrangente é a variação do patrimônio líquido no período que não vem de transações com os sócios na qualidade de donos (como aumentos de capital e dividendos).

Ela foi introduzida no Brasil pelo Pronunciamento Técnico CPC 26 (R1), alinhado às normas internacionais IFRS, e é exigida das companhias abertas. Como a Lei 6.404/76 exige a DRE, no Brasil a DRA é apresentada como uma demonstração separada, logo depois dela. A partir dos exercícios iniciados em 2027, o CPC 26 será substituído pelo CPC 51 (equivalente à IFRS 18), que muda a estrutura da DRE, mas mantém os outros resultados abrangentes e a sua divisão entre itens que voltam ou não para o resultado.

No ano, uma companhia teve lucro líquido de R$ 800 mil, ganho atuarial de R$ 50 mil, perda de R$ 120 mil na conversão de uma controlada no exterior e recebeu R$ 300 mil dos sócios em aumento de capital. Qual é o resultado abrangente total?

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Gabarito: R$ 730 mil — 800 + 50 − 120. O aumento de capital é uma transação com os sócios na qualidade de donos e fica fora do resultado abrangente; quem o soma chega aos R$ 1.030 mil.

Objetivo da DRA

Algumas variações patrimoniais ainda não se realizaram financeiramente, oscilam muito ou dependem de estimativas de longo prazo. Para não deixar o lucro do período sujeito a esses movimentos, as normas contábeis indicam, uma a uma, quais delas são registradas diretamente no patrimônio líquido, em vez de passarem pela DRE. Mesmo assim, elas são relevantes para investidores e analistas, e a DRA existe para que não fiquem escondidas.

Atenção: a separação não é entre "operacional" e "extraordinário". A DRE também contém itens não operacionais e até ganhos ainda não realizados (como a variação do valor justo de muitas aplicações financeiras e o resultado de equivalência patrimonial), e as normas proíbem apresentar qualquer item como "extraordinário". O que vai para os ORA é apenas o que uma norma específica manda para lá.

Alguns setores costumam ter ORA muito oscilantes, como bancos, seguradoras, multinacionais e companhias aéreas, porque têm muitos ativos financeiros, investimentos no exterior e exposição a juros e câmbio. Nesses casos, olhar apenas a DRE pode ser enganoso.

Diferença entre DRE e DRA

DREDRA
Mostra receitas, custos e despesas do períodoParte do lucro líquido e acrescenta os outros resultados abrangentes
Termina no lucro líquidoTermina no resultado abrangente total
Contém o que as normas mandam reconhecer no resultado, realizado ou nãoContém os ganhos e perdas que as normas mandam reconhecer direto no patrimônio líquido
Exigida pela Lei 6.404/76Exigida pelo CPC 26 (R1)

Estrutura da DRA

A estrutura é:

1. Lucro líquido do exercício (valor vindo da DRE)

2. Outros resultados abrangentes (ORA)

São ganhos ou perdas reconhecidos diretamente no patrimônio líquido, sem passar pela DRE no momento em que acontecem. Em geral, ainda não se realizaram financeiramente, podem ser temporários e dependem de avaliações futuras. Eles se acumulam no patrimônio líquido, na conta de ajustes de avaliação patrimonial (ou de outros resultados abrangentes acumulados).

Os ORA são apresentados em dois grupos (CPC 26, item 82A): os itens que não serão reclassificados para o resultado e os que poderão ser reclassificados ("reciclados"). Exemplo de reciclagem: uma empresa faz hedge de fluxo de caixa de uma venda futura; enquanto a venda não acontece, os ganhos e perdas do instrumento de proteção ficam nos ORA; quando a venda acontece, esse valor é transferido para a DRE. Ou seja: a DRA pode antecipar efeitos futuros no lucro.

Principais exemplos (CPC 26, item 7):

  • ganhos e perdas atuariais de planos de benefício definido (não são reciclados);
  • variação do valor justo de ações que a empresa escolheu mensurar pelo valor justo por meio de outros resultados abrangentes (não são reciclados nem quando as ações são vendidas);
  • variação do valor justo de títulos de dívida mensurados pelo valor justo por meio de outros resultados abrangentes (são reciclados quando o título é vendido);
  • parcela efetiva do hedge de fluxo de caixa (é reciclada);
  • ajustes de conversão de investimentos no exterior (são reciclados quando o investimento é vendido);
  • a parte da empresa nos ORA de coligadas e controladas, pela equivalência patrimonial.

No Brasil, a reavaliação de ativos imobilizados, que em outros países também gera ORA, não é permitida desde a Lei 11.638/2007.

3. Resultado abrangente total

Qual destes itens de outros resultados abrangentes nunca será reclassificado para a DRE?

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Gabarito: Ganho atuarial de plano de benefício definido — os ganhos e perdas atuariais ficam no patrimônio líquido para sempre. Os outros três são reciclados: o hedge quando a operação protegida acontece, a conversão quando o investimento é vendido e o título quando é vendido.

Uma empresa vende a sua controlada no exterior, que tinha R$ 40 mil de ajuste de conversão negativo acumulado no patrimônio líquido. O que acontece com esses R$ 40 mil?

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Gabarito: Saem do patrimônio líquido e entram na DRE como perda do período — o ajuste de conversão é um item que pode ser reclassificado, e a venda do investimento é o momento da reclassificação. Ficar para sempre no patrimônio é o que acontece com os ganhos atuariais.

Exemplo com a Petrobras

DRA da Petrobras
DRA da Petrobras

A Petrobras teve R$ 32,8 bilhões de lucro líquido consolidado no 1º trimestre de 2026 (R$ 32.761 milhões: os valores da tabela estão em milhões de reais). Esse valor vem diretamente da DRE e é o ponto de partida da DRA.

Itens que NÃO serão reclassificados para o resultado

Aqui entram efeitos patrimoniais permanentes: afetam o patrimônio, mas não voltarão para a DRE depois.

Os ganhos atuariais com planos de benefícios definidos foram de R$ 4 milhões no 1º trimestre de 2025, no consolidado; no 1º trimestre de 2026, essa linha ficou zerada. Essa linha está ligada à previdência complementar, às aposentadorias e às pensões. A Petrobras estima quanto precisará pagar no futuro aos aposentados, e essas estimativas dependem de expectativa de vida, juros, inflação e reajustes salariais. Quando as premissas mudam, surge um ganho ou uma perda atuarial.

Equivalência patrimonial sobre outros resultados abrangentes em investidas

Aqui a Petrobras reconhece a sua parte nos ORA das empresas em que investe. Imagine que a Petrobras possua 30% de outra empresa e que essa empresa tenha tido um ganho abrangente: a Petrobras reconhece 30% dele. Nessa linha, só a coluna da controladora tem valor: R$ 4 milhões no 1º trimestre de 2025. No consolidado, e em 2026, ela ficou zerada.

Itens que PODERÃO ser reclassificados para o resultado

Aqui entram itens temporários: hoje estão no patrimônio líquido e, no futuro, podem virar lucro ou prejuízo na DRE. Essa parte é MUITO importante.

Resultados não realizados com hedge de fluxo de caixa – exportações

Essa é uma das linhas mais importantes da DRA da Petrobras. A empresa tem grande parte da dívida em dólar e grande parte da receita de exportações também em dólar. Por isso, ela designa parte dessa dívida como proteção (hedge) das exportações futuras: a variação cambial da dívida, em vez de ir direto para a DRE, fica no patrimônio líquido até que as exportações protegidas aconteçam. "Reconhecidos no patrimônio líquido" significa que essas exportações ainda não ocorreram, mas o câmbio já mudou o valor da dívida em reais.

No 1º trimestre de 2026, essa linha somou R$ 19,7 bilhões positivos no patrimônio; no mesmo período de 2025, foram R$ 28,9 bilhões. Valores grandes, para cima ou para baixo, mostram o tamanho da exposição da empresa ao dólar.

Transferidos para o resultado

À medida que as exportações protegidas acontecem, a parte correspondente da variação cambial acumulada sai do patrimônio líquido e entra na DRE. Uma parte daqueles ganhos ou perdas acumulados passou a ser, efetivamente, resultado do período. Na Petrobras, foram R$ 2,7 bilhões transferidos no 1º trimestre de 2026 (R$ 4,2 bilhões em 2025).

Tributos diferidos sobre o lucro

Toda variação do hedge terá efeito tributário quando for transferida para o resultado. Por isso, a Petrobras registra os tributos diferidos correspondentes junto com essas linhas: R$ 7,6 bilhões negativos no 1º trimestre de 2026. Somando as três linhas, o hedge acrescentou R$ 14,8 bilhões líquidos ao patrimônio no trimestre (R$ 21,9 bilhões em 2025).

Ajustes de conversão em investidas

A Petrobras tem subsidiárias e empresas no exterior, que usam dólar, euro e outras moedas. Quando o câmbio muda, o patrimônio delas convertido para reais também muda. Imagine que uma subsidiária tenha patrimônio de US$ 10 bilhões e que o dólar caia frente ao real: automaticamente, o patrimônio convertido em reais diminui, mesmo sem nenhuma perda operacional.

Por conversão cambial, a Petrobras teve uma redução patrimonial de R$ 18,1 bilhões, o que mostra a sua exposição internacional e a sensibilidade ao câmbio.

Equivalência patrimonial sobre outros resultados abrangentes em investidas

Agora são os ORA de investidas que poderão ser reclassificados: hoje estão no patrimônio líquido, mas no futuro podem virar resultado na DRE. O trecho "Reconhecidos no patrimônio líquido" deixa claro que esse valor ainda NÃO virou lucro ou prejuízo. No consolidado, foram R$ 7 milhões no 1º trimestre de 2026, contra R$ 685 milhões em 2025.

Outros resultados abrangentes

É a soma de todas as linhas de ORA acima, dos dois grupos.

No 1º trimestre de 2026, os ORA da Petrobras somaram R$ 3,4 bilhões negativos (R$ 3.352 milhões): o ganho líquido do hedge, de R$ 14,8 bilhões, não compensou a perda de R$ 18,1 bilhões na conversão. Ou seja, a empresa lucrou na DRE, mas teve perdas patrimoniais nos ajustes abrangentes.

Resultado abrangente total

É a soma dos ORA com o lucro líquido: R$ 32.761 milhões − R$ 3.352 milhões = R$ 29.409 milhões, cerca de R$ 29,4 bilhões no trimestre.

Acionistas não controladores vs acionistas da Petrobras

A Petrobras consolidada inclui empresas que não pertencem 100% a ela. Então, quando o grupo inteiro tem resultado, surgem as perguntas: "Quanto desse resultado pertence aos acionistas da Petrobras?" e "Quanto pertence aos outros sócios dessas controladas, os não controladores?" É isso que essas linhas separam. Dos R$ 29.409 milhões de resultado abrangente total, R$ 29.311 milhões pertencem aos acionistas da Petrobras e R$ 98 milhões aos não controladores.

Por que a Petrobras registra no patrimônio líquido, e não na DRE, a variação cambial de parte da sua dívida em dólar?

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Gabarito: Porque essa dívida foi designada como hedge de exportações futuras, e a variação espera essas exportações para ir à DRE — sem o hedge, a variação cambial da dívida iria direto para o resultado financeiro, como em qualquer empréstimo em moeda estrangeira.

O que investidores analisam na DRA?

Qualidade do lucro

O patrimônio cresceu por causa da operação ou só por ajustes temporários?

Exposição cambial

ORA muito negativos podem indicar risco em moeda estrangeira.

Risco financeiro

Grandes oscilações em hedge ou em ativos financeiros podem preocupar.

Sustentabilidade do patrimônio

Às vezes a DRE parece ótima, mas a DRA mostra deterioração patrimonial.

Exemplo de interpretação

Imagine uma empresa que lucra R$ 24 mil por ano com aluguéis, mas tem uma controlada na Europa cujo patrimônio, convertido em reais, perdeu R$ 30 mil no ano com a queda do euro. A DRE mostra lucro de R$ 24 mil; a DRA mostra resultado abrangente negativo de R$ 6 mil. De que adianta o lucro do aluguel se o patrimônio dos sócios diminuiu?

Exercícios

1) (CESPE / CEBRASPE - 2026 - Telebras - Especialista em Gestão de Telecomunicações - Analista Superior - Subatividade: Finanças) Na demonstração do resultado abrangente, as rubricas que não serão reclassificadas subsequentemente para o resultado do período devem ser apresentadas em um grupamento separado das rubricas que serão reclassificadas subsequentemente para o resultado do período, atendidas as condições específicas estabelecidas nos pronunciamentos técnicos do CPC.

Certo ou errado?

2) (CESPE / CEBRASPE - 2025 - TJ-PA - Analista Judiciário - Especialidade: Ciências Contábeis) O valor do efeito tributário associado a cada elemento que integra os outros resultados abrangentes pode, alternativamente, ser divulgado na demonstração do resultado abrangente.

Certo ou errado?

3) (CESPE / CEBRASPE - 2025 - STM - Analista Judiciário - Área: Apoio Especializado - Especialidade: Contabilidade) Os resultados abrangentes oriundos da aplicação do método da equivalência patrimonial sobre investimentos devem ser evidenciados, na demonstração de outros resultados abrangentes da investidora, com a classificação de cada um de seus componentes conforme sua natureza.

Certo ou errado?

4) (IBAM - 2025 - Prodesan - SP - Contador) O Resultado Abrangente reflete todas as variações no patrimônio líquido de uma entidade que não são originadas de transações com seus acionistas ou proprietários. Assinale a alternativa correspondente a um dos Itens que não são reconhecidos diretamente no lucro ou prejuízo, mas afetam o patrimônio líquido e estão relacionados com planos de benefícios de pensões ou outras obrigações de longo prazo.

A) Ajustes em derivativos de cobertura.

B) Variações cambiais.

C) Ganhos ou perdas atuariais.

D) Ajustes de avaliação patrimonial.

5) (CESPE / CEBRASPE - 2024 - STJ - Analista Judiciário - Área: Apoio Especializado - Especialidade: Contadoria) A demonstração do resultado abrangente difere da demonstração do resultado do exercício porque os valores abrangentes apresentados naquela não transitaram em contas de receitas ou de despesas até o final do exercício social ao qual as demonstrações se referem.

Certo ou errado?

6) (IBADE - 2024 - CRC-MS - Contador) A Demonstração do Resultado Abrangente visa apresentar detalhadamente não apenas o resultado operacional de uma empresa, mas também outros componentes que impactam o patrimônio líquido e que não estão incluídos na Demonstração do Resultado tradicional, como ajustes de avaliação patrimonial e resultados de investimentos.

Diante disso, analise qual das alternativas a seguir identifica corretamente um dos componentes do resultado abrangente.

A) Receita líquida de vendas.

B) Despesas operacionais.

C) Variação nas reservas de capital.

D) Resultado antes do imposto de renda.

E) Ganhos e perdas atuariais em planos de pensão.

7) (Ibest - 2024 - CRQ - 13ª Região - SC - Técnico de Formação Superior - Contador) A demonstração do resultado abrangente compreende as transações que alteram o patrimônio líquido, sem que essas sejam realizadas com os sócios na condição de proprietários, e que não transitam nem transitarão pelo resultado do exercício.

Certo ou errado?

Gabarito

1) Certo. É a divisão em dois grupos do item 82A do CPC 26.

2) Certo. O efeito tributário de cada componente pode aparecer na própria DRA ou nas notas explicativas (CPC 26, item 90).

3) Errado. A parte da investidora nos ORA das investidas aparece em linha própria, separada apenas entre o que será e o que não será reclassificado (CPC 26, item 82A).

4) C

5) Certo

6) E

7) Errado. Parte dos ORA é reclassificada para o resultado no futuro, e a DRA também inclui o lucro líquido, que passou pela DRE.

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