Relatório de Sustentabilidade: Ambiental, Social e Governança (ASG)

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O que é o relatório de sustentabilidade ASG/ESG, os pilares ambiental, social e de governança, os padrões GRI e ISSB e a regra da CVM em 2026.

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O relatório de sustentabilidade é o documento em que a empresa mostra como afeta o meio ambiente e a sociedade e como é governada.

Enquanto as demonstrações financeiras respondem "quanto dinheiro a empresa ganhou?", o relatório de sustentabilidade responde "como a empresa gera esse dinheiro, que impactos causa e quais riscos ambientais, sociais e de governança podem afetar o seu resultado?".

Por que o relatório de sustentabilidade existe?

Durante muito tempo, as empresas foram avaliadas quase só pelo lucro, pelo patrimônio e pela geração de caixa. Mas os investidores perceberam que duas empresas com o mesmo lucro podem ter riscos completamente diferentes.

Por exemplo: a Empresa A tem lucro de R$ 1 bilhão, emite muito carbono e tem histórico de acidentes ambientais; a Empresa B tem o mesmo lucro de R$ 1 bilhão, emissões controladas e baixa taxa de acidentes. Na DRE (Demonstração do Resultado do Exercício), as duas parecem iguais. O relatório de sustentabilidade mostra que não são: a Empresa A está mais exposta a multas, indenizações, novas regras sobre carbono e perda de reputação.

Duas empresas têm lucro de R$ 1 bilhão; a A emite muito carbono e tem histórico de acidentes ambientais, a B não. O que essa comparação mostra?

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Gabarito: A DRE não capta riscos que podem reduzir o lucro futuro da A, como multas, indenizações e novas regras sobre carbono — a DRE mostra o resultado do período, não os riscos que ainda não viraram despesa. A última opção tenta, mas o relatório de sustentabilidade é um documento à parte e não altera a DRE.

O conceito ESG (ou ASG)

Hoje esses relatórios costumam seguir a lógica ESG, sigla em inglês de Environmental, Social and Governance. Em português usa-se também ASG: Ambiental, Social e Governança.

Pilar ambiental (E em inglês, A em português)

Mostra o impacto da empresa sobre o meio ambiente. Exemplos: emissões de gases de efeito estufa (medidas em toneladas de CO₂ equivalente); consumo de água; geração e descarte de resíduos; derramamentos; uso de energia renovável; recuperação de áreas degradadas.

Uma petroleira como a Petrobras, por exemplo, divulga indicadores típicos do setor: toneladas de CO₂ equivalente emitidas, vazamentos de óleo, consumo de energia e intensidade de emissões (emissões por barril produzido).

Pilar social (S)

Mostra como a empresa se relaciona com as pessoas: funcionários, clientes, fornecedores e comunidades.

Indicadores comuns são número de empregados, diversidade, participação feminina, acidentes de trabalho, horas de treinamento e investimentos sociais. Um relatório pode informar, por exemplo, que as mulheres ocupam 38% dos cargos de liderança ou que a empresa realizou 500 mil horas de treinamento no ano.

Pilar governança (G)

Mostra como a empresa é administrada: composição do conselho de administração, independência dos conselheiros, auditoria, combate à corrupção, ética e transparência.

É nesta parte que o leitor descobre se existe auditoria independente, se há conselheiros independentes e se houve escândalos ou investigações recentes.

Um relatório informa a proporção de conselheiros independentes no conselho de administração. A que pilar ESG esse indicador pertence?

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Gabarito: Governança — composição e independência do conselho dizem como a empresa é administrada. Social é tentador porque envolve pessoas, mas o pilar S trata da relação com empregados, clientes, fornecedores e comunidades.

Diferença para a DVA

A DVA (Demonstração do Valor Adicionado) mostra como a riqueza gerada foi distribuída entre empregados, governo, financiadores e acionistas. O relatório de sustentabilidade mostra como essa riqueza foi gerada e quais impactos essa geração causou. A DVA é uma demonstração contábil, obrigatória para as companhias abertas; o relatório de sustentabilidade é um relatório à parte, com regras próprias.

O que os investidores observam?

Emissões de carbono

Os investidores querem saber se a empresa está preparada para a transição energética: quanto emite, se tem metas de redução e quanto custaria se o carbono passasse a ser taxado.

Acidentes operacionais

Uma empresa pode ter lucro alto, mas, se registra explosões, derramamentos e mortes, carrega um risco que ainda não apareceu no resultado.

Processos judiciais

O relatório costuma mostrar multas ambientais, contingências e conflitos com comunidades.

Capital humano

Alguns investidores acompanham rotatividade, treinamento e retenção de talentos.

Diversidade

Fundos internacionais costumam analisar a presença de mulheres em cargos de liderança, a diversidade racial e as políticas de inclusão.

Situações atípicas que chamam atenção

Lucro crescendo e emissões crescendo

Pode indicar uma expansão pouco sustentável e risco regulatório no futuro.

Poucos acidentes e muitos processos

Pode indicar problemas que não estão sendo registrados.

ESG excelente e lucro fraco

Às vezes a empresa investe muito em sustentabilidade, mas ainda não gera retorno econômico adequado.

ESG ruim e lucro alto

Pode parecer ótimo no curto prazo, mas pode gerar multas, restrições regulatórias e perda de reputação.

Em três anos, o lucro de uma mineradora dobrou e as emissões de gases de efeito estufa também dobraram, sem nenhuma meta de redução. Qual a leitura mais prudente?

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Gabarito: Expansão pouco sustentável, com risco regulatório e de custo de carbono no futuro — crescer emitindo cada vez mais deixa a empresa exposta a taxação de carbono, multas e restrições. Não é greenwashing: greenwashing é parecer mais sustentável do que se é, e aqui os números ruins estão à vista.

Críticas ao relatório de sustentabilidade

Nem tudo é perfeito. Um dos maiores problemas é o chamado greenwashing: a empresa tenta parecer mais sustentável do que realmente é.

Por exemplo, destaca pequenas ações ambientais e omite problemas relevantes.

Por isso os investidores olham os indicadores quantitativos, verificam se o relatório passou por asseguração (a revisão por um auditor independente) e comparam os números com os de anos anteriores.

Os padrões usados no relatório

Os relatórios estão ficando cada vez mais parecidos com as demonstrações financeiras: números, metas, comparação ano a ano e revisão por auditor. Veja aqui um exemplo de relatório de sustentabilidade da Petrobraslink outside website.

Para que os dados sejam comparáveis entre empresas, os relatórios seguem padrões internacionais. Os principais são:

  • GRI (Global Reporting Initiative): o padrão mais usado no mundo. Foca nos impactos da empresa sobre a economia, o meio ambiente e as pessoas (a chamada materialidade de impacto). Hoje está organizado nas GRI Standards, cujos padrões universais foram revisados em 2021.
  • ISSB (International Sustainability Standards Board): conselho criado em 2021 pela Fundação IFRS, a mesma que cuida das normas contábeis internacionais. Em junho de 2023 publicou a IFRS S1 (requisitos gerais) e a IFRS S2 (clima). O foco é o investidor: quais riscos e oportunidades de sustentabilidade podem afetar o caixa, o resultado e o valor da empresa (a materialidade financeira).
  • SASB: padrões por setor que, desde 2022, são mantidos pelo próprio ISSB e servem de referência para aplicar a IFRS S1.

GRI e ISSB não competem: muitas empresas usam os dois, porque respondem a perguntas diferentes (o impacto da empresa sobre o mundo e o impacto do mundo sobre a empresa).

Um investidor quer saber como uma seca prolongada pode afetar o caixa e o valor de uma empresa de alimentos. Qual padrão foi desenhado para essa pergunta?

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Gabarito: IFRS S1 e S2 do ISSB, com foco na materialidade financeira — o ISSB olha o efeito dos temas de sustentabilidade sobre a empresa e o investidor. A GRI é a armadilha: ela olha o caminho inverso, o impacto da empresa sobre a economia, o meio ambiente e as pessoas.

Como está a regra no Brasil

No Brasil, as normas do ISSB foram trazidas pelo CBPS (Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade), criado pelo Conselho Federal de Contabilidade. Os pronunciamentos CBPS 01 (equivalente à IFRS S1) e CBPS 02 (equivalente à IFRS S2) foram aprovados pela CVM em outubro de 2024.

O caminho da obrigatoriedade mudou mais de uma vez:

NormaO que determinou
Resolução CVM 193/2023Adoção voluntária do relatório no padrão ISSB a partir dos exercícios de 2024, e obrigatória para as companhias abertas a partir dos exercícios iniciados em 1º de janeiro de 2026.
Resoluções CVM 217 e 218/2024Aprovaram o CBPS 01 e o CBPS 02 como as normas a seguir.
Resolução CVM 244/2026 (29/05/2026)Revogou a obrigatoriedade antes de ela começar: o relatório passou a ser voluntário, inclusive para os exercícios de 2026.

Como fica a regra hoje:

  • A companhia aberta que optar por divulgar segue o CBPS 01 e o CBPS 02, declara de forma explícita a aderência a essas normas, arquiva o relatório na CVM e o submete a asseguração por auditor independente.
  • Quem começa a divulgar tem de manter a divulgação por pelo menos três exercícios seguidos; para parar, precisa avisar o mercado com um exercício de antecedência.
  • A partir de 1º de janeiro de 2027, a companhia aberta que optar por não arquivar o relatório terá de explicar os motivos em comunicado ao mercado, até a data de entrega das demonstrações financeiras anuais. É o modelo "pratique ou explique".

Ou seja: o relatório no padrão ISSB não é obrigatório, mas deixar de fazê-lo passa a exigir justificativa pública. Fora desse relatório, muitas empresas continuam publicando relatórios no padrão GRI por conta própria, sem exigência legal.

Em 2027, uma companhia aberta brasileira decide não arquivar o relatório de sustentabilidade no padrão ISSB. Pela Resolução CVM 193, com a redação da Resolução CVM 244/2026, o que ela deve fazer?

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Gabarito: Explicar os motivos em comunicado ao mercado até a data de arquivamento das demonstrações financeiras anuais — a partir de 1º de janeiro de 2027 vale o modelo pratique ou explique. Nada é a resposta tentadora, porque o relatório deixou de ser obrigatório, mas deixar de fazê-lo exige justificativa pública.

O que um investidor experiente procura?

Ele normalmente cruza as informações:

RelatórioPergunta
DREQuanto lucrou?
Fluxo de CaixaGerou caixa?
BalançoEstá saudável?
DVAQuem recebeu a riqueza?
SustentabilidadeQuais riscos ambientais, sociais e de governança existem?

Por isso o relatório de sustentabilidade não substitui as demonstrações financeiras. Ele complementa a análise, ajudando a responder se os resultados da empresa são sustentáveis no longo prazo e quais riscos podem afetar seus lucros futuros.

Exercícios

1) (CESGRANRIO - 2023 - Transpetro - Profissional Transpetro de Nível Superior - Junior: Ênfase 1: Administração) O padrão de relatório de sustentabilidade mais usado no mundo é o da GRI (Global Reporting Initiative), cujo objetivo é disseminar nas organizações a prática de medir o seu desempenho em termos ambientais, sociais e econômicos, divulgando os resultados como forma de prestação de contas à sociedade.

As diretrizes para a elaboração de relatórios de sustentabilidade propostas pela GRI são formadas por duas categorias de princípios, que são:

A) princípios para distribuição de lucros e princípios para definição da alocação de investimentos.

B) princípios para preservação da imagem da organização e princípios para atendimento às leis.

C) princípios para garantir a lucratividade da organização e princípios para tratamento de crises.

D) princípios para controle da publicidade da organização e princípios para apresentação de resultados.

E) princípios para definir o conteúdo do relatório e princípios para assegurar a qualidade da informação.

2) (FGV - 2015 - CODEMIG - Contador Corporativo) Os administradores da Ômicron S.A. desejam publicar, em conjunto, o relatório da administração, as demonstrações contábeis e o relatório de sustentabilidade da companhia, no jornal de maior circulação no município onde ela está sediada. De acordo com as práticas contábeis adotadas no Brasil, a companhia deverá:

A) Adotar critérios de reconhecimento, mensuração e divulgação consistentes entre as demonstrações contábeis e os demais relatórios;

B) identificar claramente e distinguir as demonstrações contábeis dos demais relatórios;

C) abranger o mesmo período de tempo das demonstrações contábeis nos demais relatórios;

D) declarar que as demonstrações contábeis e os demais relatórios estão em conformidade com as práticas contábeis adotadas no Brasil;

E) divulgar suas demonstrações contábeis em documento distinto dos demais relatórios.

Gabarito

1) E. A divisão em princípios de conteúdo e princípios de qualidade é a das diretrizes G3 e G4 da GRI, em que a questão se baseia. Nas GRI Standards atuais (revisão de 2021), essa divisão deixou de existir: há uma lista única de oito princípios (exatidão, equilíbrio, clareza, comparabilidade, completude, contexto de sustentabilidade, tempestividade e verificabilidade).

2) B. O CPC 26 (Apresentação das Demonstrações Contábeis) exige que as demonstrações contábeis sejam claramente identificadas e distinguidas de outras informações publicadas no mesmo documento.

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