O surgimento da Contabilidade: sua história e o desenvolvimento humano

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Das fichas de barro da Mesopotâmia às partidas dobradas de Pacioli, à Lei 6.404/76 e às IFRS: como a Contabilidade nasceu e evoluiu até hoje.

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A evolução da Contabilidade: da Pré-história às normas internacionais

A Contabilidade nasceu antes da escrita

Quando pensamos em Contabilidade, normalmente imaginamos planilhas, computadores e balanços patrimoniais. Entretanto, a necessidade que deu origem a ela é muito mais antiga que a própria escrita.

Muito antes da invenção dos números escritos, da moeda e dos alfabetos, o ser humano já precisava controlar o que possuía. Imagine um pastor há cerca de 9 mil anos. Ele entrega parte do seu rebanho para outro pastor cuidar. Como garantir que receberá de volta a mesma quantidade de animais? Como provar quem é o dono? Como registrar uma dívida?

Sem papel, sem escrita e sem números, era preciso criar outra forma de controle. Foi assim que surgiram as fichas de barro (tokens), encontradas por arqueólogos em sítios da Mesopotâmia, da Síria, da Turquia, do Irã e de Israel. Eram pequenos objetos de argila moldados à mão e endurecidos ao fogo, em geral com 1 a 3 centímetros, em formatos como esferas, cones, discos e cilindros. As mais antigas datam de cerca de 8000 a.C., e em sítios como Jarmo, no Iraque, foram encontradas centenas delas.

Como eram as fichas de barro
Como eram as fichas de barro

Cada formato de ficha representava um tipo de bem: uma ovelha, uma medida de grãos, um jarro de azeite. Muito mais tarde, por volta de 3500 a.C., as fichas de uma transação passaram a ser guardadas dentro de envelopes de barro lacrados, chamados bullae, que funcionavam como um "recibo" ou contrato: quem recebesse a mercadoria podia quebrar o envelope e conferir se a quantidade entregue era a combinada. Para não precisar quebrá-lo, passou-se a marcar o conteúdo na superfície do envelope — e essas marcas estão entre os antecedentes da escrita cuneiforme, que surgiu por volta de 3200 a.C.

Em outras palavras, já existia um controle patrimonial. Não era uma contabilidade como a conhecemos hoje, mas já havia registro de bens, de seus proprietários, de dívidas e de transferências.

Por isso, pesquisadores como a arqueóloga Denise Schmandt-Besserat defendem que a necessidade de controlar o patrimônio ajudou a criar a escrita e os números — ou seja, que o registro contábil está na raiz da própria civilização.

Para que serviam as bullae da Mesopotâmia?

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Gabarito: Eram envelopes de barro lacrados que guardavam as fichas de uma transação, como um recibo — quebrando o envelope, era possível conferir a quantidade combinada. As marcas feitas na superfície deles, e não as bullae em si, estão entre os antecedentes da escrita.

A evolução da contagem

O processo de contagem evoluiu em três grandes fases.

1. Correspondência um a um

A primeira fase consistia em associar um sinal (por exemplo, um osso ou uma concha) a uma unidade de mercadoria (um carneiro, uma medida de grão, um coco), repetindo-se o sinal para cada unidade adicional. Dez carneiros, dez conchas.

2. Contagem concreta

Na segunda fase, a contagem concreta, fichas ou palavras passaram a representar quantidades, mas sempre ligadas a um tipo específico de coisa. Algumas expressões, como "uma parelha" ou "um par", indicavam o número dois, mas só podiam ser usadas para certos objetos. Nessa fase surgiu a noção de cardinalidade (a quantidade de elementos de um conjunto, sem referência à ordem). Essa contagem, porém, era limitada a quantidades pequenas.

3. Contagem abstrata

A última fase caracterizou-se pelo desenvolvimento dos símbolos numéricos, que liberaram a contagem de um conjunto específico de coisas: o "três" passou a servir para três ovelhas, três jarros ou três dias. Com números gerais, a Contabilidade ganhou velocidade e precisão.

Usar a mesma palavra 'três' para três ovelhas, três jarros ou três dias é a marca de qual fase da contagem?

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Gabarito: Contagem abstrata — o número passa a existir separado das coisas contadas. Na contagem concreta, a palavra ou ficha ainda ficava presa a um tipo específico de objeto.

O nascimento das partidas dobradas

Durante séculos, o comércio foi limitado. Entre os séculos XII e XV, porém, cidades italianas como Veneza, Gênova, Florença e Pisa tornaram-se grandes centros comerciais, vendendo mercadorias para vários países. Começaram a se multiplicar os empréstimos, as sociedades comerciais, os investimentos e os financiamentos.

A simples anotação das vendas deixou de ser suficiente. Era preciso controlar quem devia, quem tinha a receber, quanto havia em caixa e em estoque e qual era o lucro. Nasceu então o método das partidas dobradas; os registros mais antigos conhecidos com esse método completo são de mercadores e da administração pública de Florença e de Gênova, do fim do século XIII e da primeira metade do século XIV. Seu princípio é usado até hoje.

“Todo fato contábil possui duas faces.”

- Partidas Dobradas

Cada fato contábil é registrado em pelo menos duas contas: o valor lançado a débito em uma (ou mais) contas é lançado, no mesmo montante, a crédito em outra (ou outras). Por isso, total dos débitos = total dos créditos. Sempre.

Exemplo: uma mercadoria que custou R$ 400,00 é revendida por R$ 600,00 à vista. Os lançamentos são:

  • Caixa (Ativo): débito de R$ 600,00 — entrada do dinheiro;
  • Receita de Vendas (Resultado): crédito de R$ 600,00 — registro da venda;
  • Custo das Mercadorias Vendidas — CMV (Resultado): débito de R$ 400,00 — custo da mercadoria que saiu;
  • Estoque de Mercadorias (Ativo): crédito de R$ 400,00 — baixa do estoque pelo valor de custo.

Débitos: 600 + 400 = R$ 1.000,00. Créditos: 600 + 400 = R$ 1.000,00. No fim das contas, o total dos débitos é sempre igual ao total dos créditos — e a diferença entre a receita e o custo (R$ 600,00 − R$ 400,00) mostra o lucro bruto da operação, de R$ 200,00.

Uma mercadoria que custou R$ 700,00 é vendida a prazo por R$ 1.000,00. Qual é o lançamento da venda (sem contar a baixa do estoque)?

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Gabarito: Débito em Clientes e crédito em Receita de Vendas, R$ 1.000,00 — como a venda foi a prazo, quem aumenta é o direito a receber (Clientes), não o Caixa. O custo de R$ 700,00 entra num segundo lançamento (débito em CMV, crédito em Estoque), e o lucro de R$ 300,00 aparece no resultado, não numa conta própria do lançamento.

Luca Pacioli e a consolidação da Contabilidade

Embora o método já fosse usado por comerciantes italianos, foi o matemático e frade franciscano Luca Pacioli quem o descreveu de forma organizada e o publicou, em 1494, em Veneza, no tratado Particularis de computis et scripturis, parte da obra Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni et Proportionalità. Graças à imprensa, o livro circulou por toda a Europa. Por isso Pacioli é conhecido como o Pai da Contabilidade Moderna. É importante destacar que ele não inventou as partidas dobradas: seu mérito foi sistematizar e divulgar o método.

Qual foi a contribuição de Luca Pacioli para a Contabilidade?

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Gabarito: Descreveu de forma organizada e divulgou num livro impresso o método que os mercadores italianos já usavam — há registros em partidas dobradas anteriores à Summa, de 1494. Dizer que ele inventou o método é o erro mais comum.

A Revolução Industrial

A partir da segunda metade do século XVIII (por volta de 1760), a Revolução Industrial transformou a Contabilidade. Surgiram grandes fábricas, com milhares de empregados, máquinas, estoques enormes e investidores.

A Contabilidade passou a fornecer informações para administrar empresas, calcular custos, controlar estoques e medir lucros. Nesse período nasce a Contabilidade de Custos.

A profissão moderna de contador tem raízes na Escócia, em meados do século XIX. Em 1853 e 1854, contadores de Edimburgo e de Glasgow pediram à Rainha Vitória uma Carta Real (Royal Charter) que reconhecesse a profissão e a distinguisse da advocacia, com a qual os contadores escoceses haviam trabalhado lado a lado por muito tempo. A Sociedade de Contadores de Edimburgo recebeu a carta em 1854, e o Instituto de Contadores de Glasgow, em 1855. Seus membros passaram a usar o título de chartered accountant (CA, "contador credenciado"), designação que ainda hoje tem peso legal em vários países.

A petição de Glasgow foi assinada por 49 contadores e argumentava que a contabilidade existia havia muito tempo na Escócia como profissão distinta e de grande respeitabilidade, e que o número de praticantes crescia rapidamente. O texto destacava ainda as várias habilidades exigidas do contador: além da matemática, ele precisava conhecer os princípios gerais do Direito, porque era frequentemente chamado pelos tribunais para depor sobre questões financeiras — como ainda acontece hoje, na perícia contábil.

A evolução da Contabilidade no Brasil

Durante o período colonial, o Brasil seguia as normas portuguesas. Os registros eram simples e tinham como principal objetivo controlar a arrecadação de tributos da Coroa. Com a chegada da Família Real, em 1808, iniciou-se uma reorganização administrativa: foram criados o Erário Régio e o Conselho da Fazenda, e um alvará daquele ano determinou que a escrituração da Fazenda Real fosse feita pelo método das partidas dobradas.

Ao longo do século XIX surgiram as primeiras aulas e escolas de comércio e os primeiros profissionais especializados em escrituração mercantil.

O Código Comercial de 1850

Um marco importante foi o Código Comercial Brasileiro (Lei nº 556/1850), que tornou obrigatória a escrituração para os comerciantes, com livros obrigatórios — o Diário e o Copiador de Cartas — além de livros auxiliares. O Livro Razão, embora já usado na prática, só se tornou obrigatório por lei muito depois, para fins fiscais (Lei nº 8.218/1991). Hoje, a obrigação de escriturar está no Código Civil (Lei nº 10.406/2002, arts. 1.179 a 1.195) e, para a maioria das empresas, é cumprida de forma digital, pela Escrituração Contábil Digital (ECD) do SPED.

Foi um dos primeiros passos rumo à profissionalização da Contabilidade brasileira.

A regulamentação da profissão no Brasil

Outro grande avanço ocorreu em 1946, quando o Decreto-Lei nº 9.295 criou o Conselho Federal de Contabilidade (CFC) e os Conselhos Regionais de Contabilidade (CRCs) e regulamentou oficialmente a profissão. Hoje, só pode exercer a profissão contábil quem tem registro em um CRC — e, desde a Lei nº 12.249/2010, o registro exige aprovação no Exame de Suficiência do CFC.

A Lei das Sociedades por Ações

Em 1976 foi publicada a Lei nº 6.404, a Lei das Sociedades por Ações, que revolucionou a Contabilidade brasileira. Entre suas contribuições estão a estrutura das demonstrações financeiras, regras de avaliação do patrimônio, a divulgação obrigatória das demonstrações e mais transparência para os investidores. Ela continua em vigor, com várias alterações, e segue sendo a principal referência legal da contabilidade societária brasileira.

A convergência às normas internacionais (IFRS)

Até o início dos anos 2000, cada país seguia, na prática, suas próprias regras contábeis, o que dificultava comparar empresas de países diferentes. Imagine comparar uma empresa brasileira com uma japonesa se cada uma usasse critérios completamente diferentes para avaliar estoques, imóveis e receitas. Para resolver esse problema, o IASB (International Accounting Standards Board), criado em 2001 a partir do antigo IASC, de 1973, passou a emitir o padrão internacional conhecido como IFRS (International Financial Reporting Standards), adotado pela União Europeia a partir de 2005 e hoje exigido ou permitido na grande maioria dos países.

Seu objetivo é criar uma linguagem contábil comum para o mundo.

A Lei 11.638/2007

No Brasil, a grande mudança veio com a Lei nº 11.638/2007 (complementada pela Lei nº 11.941/2009), que alterou profundamente a Lei das Sociedades por Ações. Entre as principais mudanças estão a aproximação das normas brasileiras ao IFRS, novas regras para ativos e passivos, o teste de recuperabilidade dos ativos (impairment), a substituição da Demonstração das Origens e Aplicações de Recursos (DOAR) pela Demonstração dos Fluxos de Caixa e maior transparência e divulgação nas demonstrações financeiras.

Essa lei marcou a entrada definitiva do Brasil no processo de convergência internacional.

O Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC)

Em 2005, a Resolução CFC nº 1.055 criou o Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC), que tem uma função muito importante: traduzir e adaptar as normas internacionais (IFRS) à realidade brasileira. Essas normas recebem o nome de Pronunciamentos Técnicos CPC.

Depois de emitidos, os pronunciamentos são adotados pelos órgãos reguladores brasileiros, como a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), o Conselho Federal de Contabilidade (CFC, que os publica como Normas Brasileiras de Contabilidade, as NBC TG), a Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) e a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). O Banco Central do Brasil adota parte deles para as instituições financeiras, que seguem também regras próprias.

Qual é o papel do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC) no Brasil?

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Gabarito: Traduzir e adaptar as IFRS à realidade brasileira, em pronunciamentos que os reguladores tornam obrigatórios — quem emite as IFRS é o IASB, e quem fiscaliza a profissão e aplica o exame é o sistema CFC/CRCs.

Como funciona o sistema contábil brasileiro atualmente

Hoje a Contabilidade brasileira segue uma estrutura integrada:

  1. IFRS — normas internacionais, emitidas pelo IASB;
  2. CPC — pronunciamentos brasileiros que traduzem e adaptam as IFRS;
  3. Órgãos reguladores (CVM, CFC, SUSEP, ANS, Banco Central) — tornam os pronunciamentos obrigatórios para quem regulam;
  4. Empresas — aplicam as normas ao elaborar suas demonstrações.

Isso permite que investidores brasileiros e estrangeiros interpretem demonstrações financeiras usando praticamente a mesma linguagem contábil.

Por que isso é importante para o administrador?

O administrador moderno não precisa dominar todos os lançamentos contábeis, mas precisa compreender as informações geradas pela Contabilidade para tomar decisões.

A partir das demonstrações financeiras, ele pode responder a perguntas estratégicas, como:

  • A empresa está dando lucro ou prejuízo?
  • O caixa é suficiente para pagar as obrigações?
  • O endividamento está sob controle?
  • Os estoques estão excessivos?
  • A empresa gera retorno suficiente para seus investidores?
  • É o momento de expandir ou de reduzir as operações?

Em outras palavras, a Contabilidade deixou de ser apenas um sistema de registro e tornou-se uma das principais ferramentas de gestão, governança e tomada de decisão nas organizações. Esse é o enfoque adotado ao longo deste curso: usar a Contabilidade como instrumento para compreender a situação econômica e financeira das empresas e apoiar decisões gerenciais bem fundamentadas.

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