IntroduçãoAs previsões fazem parte do planejamento de qualquer empresa. Para planejar é preciso projetar as ações futuras a partir de estimativas do que será necessário. As estimativas de vendas permitem montar o plano de metas, os orçamentos de compras de materiais, os limites de estoque, os estoques de segurança, a força de trabalho, o capital de giro e muito mais. Como não dá para saber com certeza o que vai acontecer, precisamos de um método para estimar.Vale separar duas palavras. Previsão, como vamos usar aqui, é a projeção do passado para o futuro: olhar o histórico e estender o padrão. Predição é a antecipação de mudanças e de fatores novos que vão influenciar a procura, como um concorrente que vai abrir ao lado ou uma mudança de lei.Horizonte da previsãoO alcance de uma previsão depende do horizonte de planejamento:Longo prazo (um ano ou mais): lançar uma nova linha de produtos, definir a capacidade de novas instalações.Médio prazo (meses): planejar a força de trabalho, as necessidades de estoque, as compras de matérias-primas.Curto prazo (semanas): definir a capacidade das máquinas, as necessidades de caixa, o ajuste dos estoques, as horas de trabalho.Quanto mais alto na hierarquia, mais longo o horizonte. A diretoria se preocupa com o longo prazo e as decisões estratégicas (novos produtos, novas instalações); os gerentes operacionais cuidam do curto prazo, como atender aos pedidos das próximas semanas.O que toda previsão tem em comumNenhuma previsão é perfeita.Quanto maior o horizonte, mais imprecisa a estimativa.Prever a demanda de uma família de produtos acerta mais do que prever cada produto separadamente, porque os erros individuais se compensam em parte.Todo sistema de previsão precisa de um procedimento para corrigir desvios: fixa-se um limite para a diferença entre o previsto e o real, a partir do qual o modelo deve ser revisto. Veremos como medir esse erro no fim da aula.Os componentes da demandaUm histórico de vendas costuma misturar quatro coisas:Nível: o valor médio em torno do qual a demanda oscila.Tendência: o movimento de crescimento ou de queda ao longo do tempo.Sazonalidade: oscilações que se repetem com frequência cíclica, normalmente dentro de um ano (sorvete no verão, material escolar em janeiro e fevereiro, chocolate na Páscoa).Variação aleatória: o que sobra e não tem explicação; é ela que torna toda previsão imperfeita.Os métodos desta aula tratam bem o nível. A tendência pede métodos da próxima aula, e a sazonalidade pode ser tratada com um índice.Índice de sazonalidadeUma forma simples de medir a sazonalidade é em percentual: quando um mês vende acima da média, o índice dele passa de 100%; quando vende abaixo, fica menor que 100%.Índice de sazonalidade do mês = demanda do mês ÷ demanda média mensalSe houver vários anos de histórico, use no numerador a média daquele mês nos vários anos. Exemplo de índices mensais:Mês123456789101112Índice90%100%102%110%98%95%105%100%90%90%120%100%A média dos doze índices é 100%, como deve ser: os meses acima da média compensam os de baixo. Para prever um mês, multiplique o índice dele pela demanda média mensal prevista (demanda anual prevista ÷ 12). Se a empresa espera vender 24.000 unidades no próximo ano (2.000 por mês em média), a previsão para novembro é 1,20 × 2.000 = 2.400 unidades.A demanda de janeiro foi de 270 unidades em um ano em que a empresa vendeu 5.400 unidades no total. Se ela espera vender 6.000 unidades no ano que vem, qual a previsão para janeiro?Gabarito: 300 unidades — a média mensal foi 5.400 ÷ 12 = 450, então o índice de janeiro é 270 ÷ 450 = 0,6. A média mensal prevista é 6.000 ÷ 12 = 500, e 0,6 × 500 = 300. Quem multiplica o índice pela demanda anual (0,6 × 6.000 = 3.600) esquece de dividir por 12; e 500 é a média mensal, sem o efeito da sazonalidade.Modelos de previsãoA literatura divide os modelos de previsão em dois grandes grupos.Os métodos qualitativos são baseados principalmente na experiência e na intuição de especialistas. São usados quando há poucos dados ou a situação é nova, como no lançamento de um produto ou de uma tecnologia. Exemplos:consolidar as estimativas de venda feitas pelos próprios vendedores;método Delphi: especialistas respondem anonimamente a uma série de perguntas, recebem o resumo das respostas do grupo e revisam as suas, em rodadas, até as opiniões convergirem;pesquisa com clientes ou pesquisa de mercado;analogia com um produto parecido já lançado.Os métodos quantitativos partem de dados históricos, com a hipótese de que o passado contém informação útil sobre o futuro, dentro de certos limites. Os principais são: o método ingênuo (a demanda futura é igual à mais recente), as séries temporais (médias móveis, suavização exponencial, projeção de tendência) e os modelos causais, como a regressão linear. Nesta aula veremos os dois primeiros; a média móvel ponderada, a suavização exponencial e os mínimos quadrados ficam para a próxima aula, sobre previsão de demanda II.Método do último períodoÉ o método mais simples, também chamado de ingênuo: a previsão para o próximo período é igual à demanda real do último.Previsão do mês t+1 = demanda real do mês tSe em julho foram vendidas 4.900 unidades, a previsão para agosto é 4.900. Parece simplório, mas ele reage na hora a qualquer mudança, e por isso serve de régua: um método mais sofisticado que erra mais que o último período não está ajudando. O defeito é que ele copia também a variação aleatória: um mês atípico vira previsão para o mês seguinte.Média móvel simplesAqui, "móvel" significa que a janela de dados usada no cálculo anda com o tempo: a cada novo período entra o dado mais recente e sai o mais antigo. A previsão é a média dos últimos n períodos:Previsão do período t+1 = (D(t) + D(t−1) + … + D(t−n+1)) ÷ nem que D é a demanda real de cada período e n é o número de períodos da média.A média suaviza a variação aleatória: um mês atípico pesa só 1/n na previsão. A técnica supõe que, mesmo havendo uma leve tendência de alta ou de queda, ela é pequena comparada aos erros aleatórios.Exemplo. Com os consumos abaixo, qual a previsão para o mês 13 usando média móvel de 12 meses?Mês123456789101112Consumo99100102989996102101104969998D13 = (99 + 100 + … + 99 + 98) ÷ 12 = 1.194 ÷ 12 = 99,50Para atualizar a média não é preciso somar tudo de novo: basta tirar o dado que saiu da janela e pôr o que entrou.Nova média = média anterior + (dado novo − dado que saiu) ÷ nSe o consumo real do mês 13 for 100, a previsão do mês 14 tira o mês 1 (99) e inclui o mês 13 (100): D14 = 99,50 + (100 − 99) ÷ 12 = 99,58.Qual n escolher?Com n grande, a previsão fica estável e pouco sensível ao acaso, mas demora para perceber uma mudança real. Com n pequeno, reage rápido, mas também se deixa levar por meses atípicos. Quando há tendência, a média móvel sempre fica atrasada: numa demanda que sobe, ela prevê abaixo do real; numa que cai, acima. O gráfico mostra isso com a demanda de uma fábrica de embutidos.Demanda real e previsões por média móvel de 3 e de 5 meses: com tendência de alta, as duas ficam abaixo do real, e a de 5 meses fica mais atrasadaPara séries com tendência clara, use os métodos da próxima aula, que corrigem esse atraso.Uma fábrica vendeu 105, 106, 110, 110, 114, 121, 130, 128 e 137 unidades nos meses 1 a 9. Qual a previsão para o mês 10 por média móvel de 3 meses e por média móvel de 5 meses, respectivamente?Gabarito: 131,7 e 126,0 — a de 3 meses usa 130, 128 e 137 (395 ÷ 3 = 131,7); a de 5 meses usa 114, 121, 130, 128 e 137 (630 ÷ 5 = 126,0). Como a demanda está subindo, a média mais longa fica mais longe do valor atual.Medindo o erro da previsãoUma previsão só vale alguma coisa se a gente acompanha o quanto ela erra. O erro de cada período é a diferença entre o real e o previsto:Erro = demanda real − previsãoErros positivos (previsão abaixo do real) e negativos se cancelam numa soma simples, então para medir o tamanho do erro usa-se o desvio médio absoluto (DAM, ou MAD em inglês): a média dos erros sem o sinal.DAM = soma dos |erros| ÷ número de períodosExemplo. Uma fábrica vendeu de janeiro a julho: 4.100, 3.800, 3.800, 4.000, 4.100, 4.200 e 4.900 unidades. Compare o último período com a média móvel de 3 meses nos meses em que os dois métodos têm previsão (abril a julho):MêsRealÚltimo períodoErroMédia móvel 3Erroabr4.0003.8002003.900,0100,0mai4.1004.0001003.866,7233,3jun4.2004.1001003.966,7233,3jul4.9004.2007004.100,0800,0DAM275,0341,7Nesta série, que está subindo, o método ingênuo errou menos que a média móvel, justamente pelo atraso da média diante da tendência. Moral: não existe método melhor em geral; existe o que erra menos nos seus dados, e o DAM é a régua para comparar. Se você usa Python, a média móvel com pandas sai em uma linha: vendas.rolling(3).mean().shift(1) (o shift(1) garante que a previsão de um mês use só os meses anteriores a ele).O tamanho do erro também importa para os estoques: quanto mais a previsão erra, maior o estoque de segurança necessário, como veremos na aula sobre lead time e estoque de segurança.Dois métodos foram testados nos mesmos 4 meses. O método A errou +50, −50, +50 e −50; o método B errou +10, +20, +30 e +40. Qual a conclusão correta?Gabarito: O método B é melhor, com DAM de 25 contra 50 do A, embora tenda a prever abaixo do real — DAM de A = 200 ÷ 4 = 50; DAM de B = 100 ÷ 4 = 25. A soma zero do método A é a armadilha: erros de sinais opostos se cancelam na soma, por isso se usa o valor absoluto. Os erros sempre positivos de B mostram um viés, que vale corrigir.Referências[1] GONÇALVES, Paulo Sérgio. Administração de materiais. Rio de Janeiro: Elsevier. Capítulo sobre previsão de demanda.[2] CORRÊA, H. L.; GIANESI, I. G. N.; CAON, M. Planejamento, programação e controle da produção: MRP II/ERP. São Paulo: Atlas.ExercíciosFáceis1) A demanda de um produto foi de 620 unidades há três meses, 570 há dois meses e 545 no mês passado.a) Qual a previsão para este mês por média móvel simples de 3 meses?b) Se este mês a demanda real for de 560 unidades, qual a previsão para o próximo mês?2) A demanda do produto X no primeiro trimestre do ano passado foi de 1.260 unidades, e a demanda total do ano foi de 4.200 unidades. Qual o índice de sazonalidade do primeiro trimestre?3) Seu distribuidor liga no primeiro dia de cada mês para saber quanto entregar. As vendas de junho, julho e agosto foram de 260, 290 e 310 unidades. Usando média móvel de 3 meses, qual a previsão para setembro? E para outubro, usando a previsão de setembro no lugar do dado real?4) Uma loja vendeu 320, 350 e 380 unidades em janeiro, fevereiro e março. Qual a previsão para abril pelo método do último período e por média móvel de 3 meses? Qual das duas está mais perto do comportamento recente das vendas?5) Em quatro meses, a demanda real foi de 100, 110, 90 e 105 unidades, e a previsão tinha sido de 95, 100, 100 e 100. Calcule o erro de cada mês e o desvio médio absoluto (DAM).6) Diga qual componente da demanda (nível, tendência, sazonalidade ou variação aleatória) explica cada situação:a) as vendas de panetone triplicam todo ano em novembro e dezembro;b) as assinaturas de um aplicativo crescem cerca de 3% ao mês há dois anos;c) num sábado, a venda de guarda-chuvas de uma loja dobrou porque choveu sem previsão;d) uma padaria vende, em média, cerca de 800 pães por dia.Difíceis7) (Prova de Logística, CEFET/RJ, 2018) Uma fabricante de peças vendeu, de janeiro a julho, 4.100, 3.800, 3.800, 4.000, 4.100, 4.200 e 4.900 unidades do produto AM. Determine a previsão para agosto:a) pelo método do último período;b) por média móvel com n = 3.c) Usando a previsão de agosto do item b como se fosse o dado de agosto, qual a previsão para setembro, com n = 3?8) Uma empresa de embutidos usa média móvel para prever a demanda do mês seguinte. A demanda dos meses 1 a 9 foi: 105, 106, 110, 110, 114, 121, 130, 128 e 137.a) Calcule a previsão do mês 10 com média móvel de 5 meses.b) E com média móvel de 3 meses.c) Qual das duas você usaria, e por quê?9) (Prova de Logística, CEFET/RJ, 2018) Em 2017, a demanda de janeiro de um produto foi de 100 unidades. A demanda anual foi de 1.200 unidades em 2015, 1.100 em 2016 e 1.000 em 2017. Usando a média móvel dos três anos para prever a demanda anual de 2018 e o índice de sazonalidade de janeiro de 2017, qual a previsão para janeiro de 2018?10) Uma empresa registrou a demanda por trimestre em dois anos:TrimestreAno 1Ano 21200240230033032502704450560a) Calcule o índice de sazonalidade de cada trimestre, usando no numerador a média do trimestre nos dois anos.b) A empresa prevê vender 1.600 unidades no ano 3. Qual a previsão para cada trimestre?11) A demanda semanal de um produto nas últimas 7 semanas foi: 50, 54, 51, 55, 53, 57 e 54.a) Calcule, nas semanas 3 a 7, as previsões pelo método do último período e por média móvel de 2 semanas.b) Calcule o DAM de cada método nessas cinco semanas.c) Qual método você usaria e qual a previsão dele para a semana 8?Gabarito1) a) (620 + 570 + 545) ÷ 3 = 1.735 ÷ 3 = 578,3.b) Sai o dado mais antigo (620) e entra o novo (560): (570 + 545 + 560) ÷ 3 = 1.675 ÷ 3 = 558,3. Pela fórmula de atualização: 578,3 + (560 − 620) ÷ 3 = 578,3 − 20 = 558,3.2) 1,2 (ou 120%). A demanda média por trimestre foi 4.200 ÷ 4 = 1.050, e 1.260 ÷ 1.050 = 1,2: o primeiro trimestre vende 20% acima da média. Dividir 1.260 por 4.200 dá 0,3, que é a participação do trimestre no ano, e não o índice.3) Setembro: (260 + 290 + 310) ÷ 3 = 860 ÷ 3 = 286,7, ou cerca de 287 unidades. Outubro: sai junho e entra a previsão de setembro: (290 + 310 + 286,7) ÷ 3 = 886,7 ÷ 3 = 295,6, ou cerca de 296 unidades.4) Último período: 380 (a venda de março). Média móvel de 3 meses: (320 + 350 + 380) ÷ 3 = 1.050 ÷ 3 = 350. As vendas sobem 30 por mês; o último período (380) fica mais perto desse comportamento, enquanto a média (350) fica atrasada, igual à venda de fevereiro.5) Erro = real − previsão: 100 − 95 = +5; 110 − 100 = +10; 90 − 100 = −10; 105 − 100 = +5. DAM = (5 + 10 + 10 + 5) ÷ 4 = 30 ÷ 4 = 7,5 unidades.6) a) Sazonalidade: se repete todo ano na mesma época.b) Tendência: crescimento consistente ao longo do tempo.c) Variação aleatória: um fato sem padrão que não se repete de forma previsível.d) Nível: o valor médio em torno do qual a demanda oscila.7) a) 4.900, a venda de julho.b) (4.100 + 4.200 + 4.900) ÷ 3 = 13.200 ÷ 3 = 4.400.c) (4.200 + 4.900 + 4.400) ÷ 3 = 13.500 ÷ 3 = 4.500. A previsão entra no lugar do dado real porque agosto ainda não aconteceu; quando o real de agosto sair, refaça a conta com ele.8) a) Meses 5 a 9: (114 + 121 + 130 + 128 + 137) ÷ 5 = 630 ÷ 5 = 126,0.b) Meses 7 a 9: (130 + 128 + 137) ÷ 3 = 395 ÷ 3 = 131,7.c) A de 3 meses, porque a série tem tendência de alta clara e a média mais curta fica menos atrasada. Melhor ainda seria um método que trate a tendência, como os da próxima aula.9) 110 unidades.Demanda anual prevista para 2018: (1.200 + 1.100 + 1.000) ÷ 3 = 1.100, ou 1.100 ÷ 12 = 91,67 por mês.Índice de janeiro em 2017: média mensal de 2017 = 1.000 ÷ 12 = 83,33; índice = 100 ÷ 83,33 = 1,2.Previsão: 1,2 × 91,67 = 110.Repare que a demanda anual vem caindo 100 por ano, e a média móvel prevê 1.100 para 2018, acima dos 1.000 de 2017: é o atraso da média diante da tendência.10) a) Média de cada trimestre nos dois anos: T1 = (200 + 240) ÷ 2 = 220; T2 = (300 + 330) ÷ 2 = 315; T3 = (250 + 270) ÷ 2 = 260; T4 = (450 + 560) ÷ 2 = 505. Média trimestral geral: (1.200 + 1.400) ÷ 8 = 2.600 ÷ 8 = 325. Índices: T1 = 220 ÷ 325 ≈ 0,68; T2 = 315 ÷ 325 ≈ 0,97; T3 = 260 ÷ 325 = 0,80; T4 = 505 ÷ 325 ≈ 1,55. A média dos quatro índices é 1, como deve ser.b) Média trimestral prevista: 1.600 ÷ 4 = 400. T1 = 0,677 × 400 ≈ 271; T2 = 0,969 × 400 ≈ 388; T3 = 0,80 × 400 = 320; T4 = 1,554 × 400 ≈ 622. (A soma dá 1.601 por causa do arredondamento; sem arredondar, dá exatamente 1.600.)11) a) e b)SemanaRealÚltimo períodoErroMédia móvel 2Erro35154−3(50 + 54) ÷ 2 = 52,0−1,045551+4(54 + 51) ÷ 2 = 52,5+2,555355−2(51 + 55) ÷ 2 = 53,00,065753+4(55 + 53) ÷ 2 = 54,0+3,075457−3(53 + 57) ÷ 2 = 55,0−1,0DAM16 ÷ 5 = 3,27,5 ÷ 5 = 1,5c) A média móvel de 2 semanas, que errou menos da metade do último período (DAM 1,5 contra 3,2). A série sobe e desce de uma semana para outra, e o último período copia cada oscilação; a média a amortece. Previsão para a semana 8: (57 + 54) ÷ 2 = 55,5.
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