Este artigo toma como base o estudo de Braga e Marques (2001), "Avaliação da liquidez das empresas através da análise da demonstração de fluxos de caixa", publicado na Revista Contabilidade & Finanças da FEA-USP.Entender o ciclo financeiro da empresa é um dos principais passos para garantir finanças sustentáveis, e é por isso que as métricas de análise do fluxo de caixa são tão importantes.Saber que o fluxo de caixa está positivo, porque entra mais dinheiro do que sai, é só uma análise superficial: pode indicar boa saúde financeira, mas não garante.Há outras camadas de análise, como os indicadores do fluxo de caixa e os principais indicadores de desempenho (KPIs), que ajudam empresários e empreendedores a verificar se a empresa realmente terá dinheiro para pagar as contas e para crescer.Os indicadores mais importantesAssim como as demais demonstrações, a Demonstração dos Fluxos de Caixa (DFC) serve de base para o cálculo de vários indicadores financeiros. Os autores agrupam os mais importantes em quatro categorias, apresentadas a seguir, cada uma voltada a um dos quatro objetivos que o SFAS nº 95 (a norma norte-americana de fluxo de caixa da época, hoje ASC 230) atribui à DFC. No Brasil, a DFC segue o CPC 03 (R2), correlato à norma internacional IAS 7.No cálculo desses indicadores, o fluxo de caixa líquido das operações (FCO) exclui as transações não usuais, como recebimentos de indenizações judiciais ou de seguros, que distorceriam a comparação entre períodos.Indicadores de cobertura de caixaA primeira categoria, a dos quocientes de cobertura, permite avaliar a liquidez do negócio: a capacidade de o caixa gerado pelas operações cobrir juros, dívidas e dividendos.Cobertura de juros com caixaComplementa o índice tradicional de cobertura de juros, que usa o lucro (regime de competência). Como o FCO já vem descontado dos juros e dos tributos sobre o lucro pagos, eles são somados de volta no numerador. Um índice de 1,3 significa que, para cada R$ 1,00 pago de juros, a operação gerou R$ 1,30 de caixa.\[\frac{\text{FCO antes de juros e impostos}}{\text{Juros pagos}}\]Cobertura de dívidas com caixaUsa o fluxo de caixa operacional retido, isto é, depois dos dividendos. O inverso do índice indica quantos anos de geração de caixa seriam necessários para quitar toda a dívida.\[\frac{\text{FCO} - \text{Dividendos totais}}{\text{Exigível total (passivo circulante + não circulante)}}\]Cobertura de dividendos com caixaMostra a capacidade de pagar os dividendos (inclusive os juros sobre capital próprio) com o caixa gerado pelas operações.\[\frac{\text{FCO}}{\text{Dividendos totais}}\]Uma empresa teve FCO de R$ 900 mil, já descontados R$ 100 mil de juros pagos e R$ 200 mil de tributos sobre o lucro pagos. Qual é a cobertura de juros com caixa?Gabarito: 12 vezes — o numerador é o FCO antes de juros e impostos: 900 + 100 + 200 = 1.200; dividido pelos juros de 100, dá 12. Usar o FCO sem somar de volta juros e tributos (900 ÷ 100 = 9) subestima a cobertura.Indicadores de qualidade do resultadoA segunda categoria reúne os indicadores de qualidade do resultado. Um deles é a qualidade caixa das vendas, que mede a proporção das receitas de vendas que se converteu em dinheiro no período.Qualidade das vendas\[\frac{\text{Caixa recebido das vendas}}{\text{Receita de vendas}}\]Como o valor recebido de clientes só aparece na DFC pelo método direto, o analista externo muitas vezes o aproxima com o próprio FCO (fluxo operacional sobre vendas), como no exemplo mais abaixo.Qualidade do resultadoCompara o caixa gerado pelas operações com o resultado operacional. Um índice de 0,7 significa que, para cada R$ 1,00 de lucro operacional, a operação gerou R$ 0,70 de caixa; a diferença vem de itens que entram no lucro sem passar pelo caixa, como vendas a prazo ainda não recebidas e depreciação.\[\frac{\text{FCO}}{\text{Resultado operacional}}\]O índice FCO ÷ resultado operacional de uma empresa ficou em 0,7. Qual a leitura correta?Gabarito: Para cada R$ 1,00 de lucro operacional, a operação gerou R$ 0,70 de caixa — a diferença vem de itens que entram no lucro sem passar pelo caixa, como vendas a prazo não recebidas. O percentual das vendas recebidas é outro indicador, a qualidade das vendas.Indicadores de dispêndios de capitalA terceira categoria trata dos gastos com investimentos em ativos produtivos.Aquisições de capitalIndica a capacidade de financiar os investimentos líquidos em ativos produtivos (aquisições menos alienações de imobilizado) com o caixa operacional que sobra depois dos dividendos. Acima de 1, a operação paga sozinha esses investimentos.\[\frac{\text{FCO} - \text{Dividendos totais}}{\text{Caixa pago por investimentos de capital}}\]Investimento / financiamentoCompara o caixa líquido aplicado em investimentos com o caixa líquido obtido nos financiamentos. Só faz sentido quando há entrada líquida de financiamento (denominador positivo) financiando saídas de investimento.\[\frac{\text{Fluxo de caixa líquido de investimentos}}{\text{Fluxo de caixa líquido de financiamentos}}\]Uma empresa gerou FCO de R$ 500 mil, pagou R$ 100 mil de dividendos e investiu R$ 800 mil em imobilizado. Qual o índice de aquisições de capital e o que ele indica?Gabarito: 0,5 — o caixa retido da operação cobriu metade dos investimentos, e o restante precisou de outras fontes — (500 − 100) ÷ 800 = 0,5. O 0,625 vem de esquecer de descontar os dividendos, e mesmo ele ficaria abaixo de 1, ou seja, sem cobertura total.Indicadores de retorno do fluxo de caixaA quarta categoria reúne o fluxo de caixa por ação e os indicadores de retorno sobre o investimento.Fluxo de caixa por açãoÉ o caixa operacional disponível aos acionistas ordinários (descontados os dividendos fixos das ações preferenciais) dividido pelo número médio ponderado de ações ordinárias em circulação.\[\frac{\text{FCO} - \text{Dividendos preferenciais}}{\text{Quantidade de ações ordinárias}}\]Retorno do caixa sobre os ativosEquivale ao retorno sobre o investimento total, mas em base caixa. Um índice de 0,25 indica que os ativos totais geraram, no período, caixa equivalente a 25% do seu valor.\[\frac{\text{FCO antes de juros e impostos}}{\text{Ativos totais}}\]Retorno sobre passivo não circulante e patrimônio líquidoMede o retorno em caixa sobre o capital permanente, aquele fornecido por credores de longo prazo e acionistas.\[\frac{\text{FCO}}{\text{Patrimônio líquido + Passivo não circulante}}\]Retorno sobre o patrimônio líquido\[\frac{\text{FCO}}{\text{Patrimônio líquido}}\]Exemplo com a Vale (CVRD) e a CEMIGO estudo aplicou os indicadores às DFCs publicadas pela Companhia Vale do Rio Doce (CVRD, hoje Vale) e pela CEMIG de 1997 a 1999, época em que a DFC ainda não era obrigatória no Brasil — passou a ser com a Lei 11.638/2007. Na tabela de indicadores, os valores da CVRD estão em milhões de reais e os da CEMIG, em milhares de reais.Fluxo de Caixa e Demonstrações da ValeFluxo de Caixa e Demonstrações da CemigIndicadores das empresasA CVRD aumentou a geração de caixa das atividades operacionais no período 1997-1999 (de 1.004 para 2.164 milhões), o que contribuiu para elevar a solvência da empresa. Já a CEMIG teve queda na geração de caixa das operações em 1999. As atividades de financiamento das duas consumiram caixa (saída líquida), exceto em 1997 na CVRD, quando houve entrada líquida. Na CEMIG, a saída líquida dessas atividades cresceu mais de seis vezes de 1997 para 1998 (de 83,7 para 534 milhões), por causa do forte aumento dos dividendos e juros sobre o capital próprio pagos aos acionistas. As atividades de investimento tiveram saída líquida em todos os anos, mas a CVRD aumentou esses investimentos, enquanto a CEMIG os reduziu.Em 1997, a CVRD teve índice de investimento sobre financiamento de 5,19 (405 ÷ 78): o caixa aplicado em investimentos foi mais de cinco vezes maior que o obtido nos financiamentos. Nos outros anos da CVRD e em todos os da CEMIG, o índice não acrescenta informação, porque houve saída líquida nos financiamentos (denominador negativo). Ele só faz sentido quando entradas de financiamento cobrem saídas de investimento.Aparentemente, não houve necessidade de aumentar o endividamento, porque as operações geraram caixa mais que suficiente. Esse excedente financiou a parte dos investimentos não coberta pelos financiamentos e ainda reforçou o saldo de caixa.Atenção à leitura da tabela de indicadores: a linha "cobertura de dividendos" foi calculada no estudo como dividendos (incluindo juros sobre o capital próprio) divididos pelo FCO, ou seja, é o inverso da fórmula apresentada acima e mostra quanto do caixa operacional foi distribuído. Esse percentual subiu nas duas empresas de 1997 para 1998 (CVRD: de 0,32 para 0,51; CEMIG: de 0,16 para 0,59) e caiu em 1999 (0,38 e 0,47). Em termos de cobertura (FCO ÷ dividendos), isso significa que a cobertura piorou em 1998 — na CVRD, de 3,1 para 2,0 vezes; na CEMIG, de 6,3 para 1,7 vez — e melhorou em 1999 (2,6 e 2,1 vezes).O fluxo operacional sobre vendas, usado como medida da qualidade caixa da receita operacional líquida (quanto das vendas se converteu em dinheiro), cresceu na CVRD (0,32, 0,42 e 0,51) e ficou estável e depois caiu na CEMIG (0,37, 0,37 e 0,20): em 1999, só cerca de 20% das vendas da CEMIG viraram caixa operacional. O índice fluxo operacional sobre resultado operacional ficou estável em 1,22 na CVRD em 1997 e 1998 e subiu para 1,54 em 1999. Na CEMIG, cresceu de 3,05 para 4,34 e depois ficou negativo (−5,98) em 1999, porque a empresa teve prejuízo operacional naquele ano.O retorno do caixa operacional sobre os ativos totais foi relativamente estável nas duas empresas. A maior taxa, de 13% (0,13), foi a da CVRD em 1999: os ativos totais da empresa geraram caixa operacional equivalente a 13% do seu valor. O fluxo de caixa operacional por ação foi calculado por lote de mil ações, a mesma base usada pelas duas empresas para divulgar o lucro por ação. As duas mostraram crescimento dessa medida de 1997 para 1998, explicado pela forte geração de caixa das operações: embora o número de ações em circulação tenha aumentado, o FCO cresceu mais que proporcionalmente. Em 1999, a CVRD alcançou o seu melhor índice da série (R$ 5,57 por mil ações), enquanto a CEMIG teve o pior (R$ 3,64).Na tabela do estudo, a linha cobertura de dividendos da CVRD em 1998 mostra 0,51, calculada como dividendos ÷ FCO. Qual é a cobertura no sentido da fórmula FCO ÷ dividendos?Gabarito: Cerca de 1,96 vez — é o inverso: 1 ÷ 0,51 ≈ 1,96 (ou 1.381 ÷ 705). Ler o 0,51 como cobertura faria parecer que o caixa não pagava nem metade dos dividendos, quando na verdade pagava quase duas vezes.ConclusãoOs indicadores do fluxo de caixa complementam os índices tradicionais, calculados pelo regime de competência, porque mostram se o lucro está de fato virando dinheiro e se esse dinheiro basta para pagar juros, dívidas, dividendos e investimentos. Como qualquer índice, porém, eles têm limitações quando usados isoladamente ou por um período curto: o ideal é acompanhá-los em série histórica e compará-los com empresas do mesmo setor. E vale conferir sempre como cada empresa classificou juros e dividendos na DFC, porque isso muda o FCO e, com ele, todos os indicadores.Referência bibliográfica1. Braga R, Marques JAV da C. Avaliação da liquidez das empresas através da análise da demonstração de fluxos de caixa. Rev contab finanç [Internet]. 2001 Jan;12(25):06–23. Available from: https://doi.org/10.1590/S1519-70772001000100001
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