IntroduçãoO estoque tem um papel enorme na capacidade de uma cadeia de suprimentos de apoiar a estratégia da empresa. Se a estratégia exige responsividade (atender rápido, ter sempre o produto), a empresa pode usar estoques maiores para isso. Se exige eficiência (custo baixo), ela pode reduzir os estoques e, com isso, os custos. A escolha de fundo, portanto, é entre responsividade, com mais estoque, e eficiência, com menos estoque. [1]Dentro da empresa esse dilema vira conflito entre áreas:ÁreaO que ela quer do estoquePor quêVendas / comercialEstoque alto de produto acabadoNunca perder uma venda e entregar na horaProduçãoEstoque alto de matéria-prima e lotes grandesNão parar a linha e diluir o custo de preparação das máquinasComprasComprar em grande quantidadeConseguir desconto e frete mais baratoFinanceiroEstoque baixoMenos capital parado e melhor fluxo de caixaComo cada área puxa para um lado, é essencial que a direção defina uma política de estoques que toda a organização tome como base. Sem ela, cada departamento decide sozinho e o resultado é o que vimos na aula 1: cada um otimiza o seu pedaço e o todo piora.Política de estoquesA política de estoques deve ser definida pela administração central da empresa, que repassa à área de controle de estoques as metas e os objetivos a atingir. Com isso, ficam estabelecidos padrões que guiam quem programa e controla os estoques e que servem também de critério para medir o desempenho da gestão de estoques.Em síntese, é um planejamento: elaborar uma política de estoques significa que as áreas industrial, comercial e financeira concordam sobre como controlar, coordenar e organizar os estoques. Uma política costuma fixar, entre outras coisas:as metas de nível de serviço (por exemplo, 98% para os itens críticos e 90% para os demais);o investimento máximo em estoque, ou o giro mínimo esperado;quais itens devem ser mantidos em estoque e quais serão comprados só quando houver pedido;os critérios para definir estoques de segurança, pontos de pedido e lotes de compra;a frequência dos inventários.Para que a política funcione, a empresa precisa acompanhar sistematicamente:os itens em estoque, verificando sua lucratividade e o posicionamento da empresa no mercado;o recebimento e a correta armazenagem das mercadorias;inventários periódicos, para avaliar a quantidade e o estado do que está estocado;o tempo de reposição de cada mercadoria;o melhor mix de produtos;o giro ideal para os principais produtos.Para saber quais estoques são relevantes e como se preparar para cada um, faça a cada item as seguintes perguntas: [2]Quantos e quais itens são estratégicos para a operação?Qual a relação de demanda do item (estoque, produção, vendas)?Qual a quantidade necessária e quanto tempo leva a reposição?Quem são os fornecedores e quais as alternativas?Dificuldades mais comunsDificuldade de suprimento pelos fornecedores: tempo de reposição longo ou incerto, qualidade incerta do material, modelo de compra ineficiente, relacionamento fraco com fornecedores.Dificuldade de suprimento pela produção interna.Erro na previsão da demanda do item.Prejuízo grave quando o item falta.Erros de cadastro e de identificação dos produtos (código, etiqueta, código de barras ou QR code).A política diz onde a empresa quer chegar. Para saber se está chegando, ela precisa de indicadores. Os quatro mais usados são o nível de serviço, a acurácia, o giro e a cobertura.Nível de serviço (ou de atendimento)O nível de serviço indica a eficácia do estoque em atender às solicitações dos usuários ou clientes. A forma mais comum de medi-lo é pela proporção de requisições (ou pedidos) atendidas: [2]Nível de serviço = requisições atendidas ÷ total de requisições recebidasO que conta como "atendida" depende do que mais importa ao negócio, e por isso há variações:atendidas completas ÷ total de requisições: só conta a requisição entregue inteira, na especificação e na quantidade pedidas;atendidas no prazo ÷ total de requisições: só conta a requisição entregue dentro do prazo;unidades entregues ÷ unidades solicitadas: mede o atendimento em quantidade, e não em número de pedidos;1 − índice de faltas: se 13% das requisições encontraram falta de material, o nível de serviço é 87%.Atenção ao denominador: é o total de requisições recebidas, e não só as atendidas. Dividir pelas atendidas esconderia justamente as que não foram atendidas.Segundo Iarozinski (2004), os itens de serviço ao cliente mais relevantes, em ordem de importância, são: disponibilidade de produtos; tempo de entrega (lead time); cumprimento do prazo de entrega; frequência de entrega; sistema de correção de falhas; flexibilidade; apoio na entrega física; sistemas de informação; e apoio pós-entrega. [3]Um nível de serviço de 90% é bom? A resposta honesta é: depende. Para um item barato e com substituto, talvez; para uma peça cuja falta para uma linha de produção, não. Clientes diferentes exigem níveis diferentes, e as empresas costumam fixar uma meta (93%, 95%, 98%…) por grupo de itens; abaixo dela, há um problema a investigar. Na aula sobre estoque de segurança veremos que cada ponto a mais de nível de serviço custa cada vez mais estoque.Em um mês, o almoxarifado recebeu 400 requisições. Dessas, 30 não foram atendidas por falta de material e 20 foram atendidas incompletas. Qual o nível de serviço medido por requisições atendidas completas?Gabarito: 87,5% — atendidas completas = 400 − 30 − 20 = 350, e 350 ÷ 400 = 0,875. A resposta 92,5% esquece as 20 incompletas, contando só as 30 não atendidas.Acurácia do estoqueA acurácia mede se o que o sistema diz que existe é o que realmente está na prateleira. Ela compara os registros (no sistema ou nas fichas) com a contagem física feita no inventário. Erros de digitação, de cadastro, de identificação, perdas e furtos derrubam a acurácia.Acurácia = itens sem divergência ÷ total de itens contadosEla também pode ser calculada em valor (R$ dos itens corretos ÷ R$ total contado). Uma acurácia baixa contamina todos os outros indicadores: se o registro está errado, o sistema pede reposição na hora errada e o nível de serviço cai mesmo com estoque "sobrando" no papel.Giro e cobertura de estoqueGiroO giro mede quantas vezes o estoque se renova em um período, isto é, quantas vezes ele "girou". Normalmente é calculado para um ano. [2]Giro no período = demanda (total das saídas) no período ÷ estoque médio no períodoPode ser calculado para um item isolado, em quantidades, ou para o estoque inteiro. Como o estoque reúne materiais diferentes, para o total usa-se valor: o custo das mercadorias vendidas (ou consumidas) dividido pelo valor do estoque médio. Use sempre a mesma base nos dois lados da conta: comparar vendas a preço de venda com estoque a preço de custo infla o giro, porque a margem de lucro entra só no numerador.O estoque médio de um mês pode ser aproximado por (estoque inicial + estoque final) ÷ 2, e o de vários meses pela média dos estoques médios mensais.CoberturaA cobertura mede por quanto tempo o estoque consegue atender à demanda sem nenhuma reposição. É o inverso do giro, expresso em tempo:Cobertura = estoque médio ÷ demanda média por período (em meses, se a demanda for mensal; em dias, se for diária)ou, de forma equivalente, cobertura = número de dias (ou meses) do período ÷ giro do período.Para saber quanto tempo o estoque de hoje dura, troque o estoque médio pelo estoque atual. A cobertura ajuda a dimensionar o trabalho e a reduzir o risco de ruptura: um item com 3 dias de cobertura e 10 dias de tempo de reposição vai faltar.Exemplo resolvidoUma empresa implantou um sistema informatizado de controle de estoques. O estoque inicial no mês 1 era de R$ 160.000. Nos seis meses seguintes houve as entradas e saídas abaixo. Qual o giro e a cobertura no semestre?O caminho é: estoque final = estoque inicial + entradas − saídas; o estoque final de um mês é o inicial do seguinte; estoque médio do mês = (inicial + final) ÷ 2.MêsEstoque inicialEntradasSaídasEstoque finalEstoque médio1160.000130.000115.000175.000167.5002175.000098.00077.000126.000377.000235.00090.000222.000149.5004222.000190.000105.000307.000264.5005307.000080.000227.000267.0006227.000110.000120.000217.000222.000Total / média608.000199.417Giro no semestre = 608.000 ÷ 199.417 ≈ 3,05 vezes.Cobertura = 6 meses ÷ 3,05 ≈ 1,97 mês ≈ 59 dias (com meses de 30 dias). Pela outra fórmula: 199.417 ÷ (608.000 ÷ 6) = 1,97 mês, o mesmo resultado.Estoque inicial, final e médio de cada mês do exemplo: o estoque médio do semestre é a referência do giroEm um ano, um giro de 3,05 por semestre equivaleria a cerca de 6 giros, ou seja, o estoque se renova mais ou menos a cada dois meses.Uma loja tem custo das mercadorias vendidas de R$ 480.000 por ano e estoque médio de R$ 60.000. Se ela conseguir elevar o giro para 12 vezes por ano sem mudar as vendas, e o custo de manter estoque é de 20% ao ano sobre o estoque médio, quanto economiza por ano?Gabarito: R$ 4.000 — o giro atual é 480.000 ÷ 60.000 = 8. Com giro 12, o estoque médio cai para 480.000 ÷ 12 = 40.000, uma redução de R$ 20.000; 20% de 20.000 = R$ 4.000 por ano. R$ 20.000 é a redução do estoque, não a economia anual.Um item tem estoque atual de 300 unidades, consumo médio de 25 unidades por dia e tempo de reposição de 15 dias. O que a cobertura indica?Gabarito: A cobertura é de 12 dias, menor que o tempo de reposição: se o pedido não sair agora, vai faltar — 300 ÷ 25 = 12 dias. Um pedido feito hoje só chega em 15 dias, então faltam cerca de 3 dias de consumo (75 unidades). 7.500 é 300 × 25, a conta invertida.Retorno de capital em estoqueO Retorno de Capital (RC) mede quanto o dinheiro investido em estoque está rendendo: é o lucro anual das vendas dividido pelo capital investido em estoque.RC = lucro anual das vendas ÷ capital investido em estoqueQuanto maior, melhor. Para julgar o número, compare-o com o custo do dinheiro da empresa (o que ela pagaria num empréstimo ou ganharia aplicando o mesmo valor): um RC menor que esse custo indica que há capital demais parado em estoque para o lucro que ele gera. Os custos de manter estoque são o assunto da aula sobre custos de estoque.Referências[1] COSTA, Taise Dalla; BORGES, Igor Roberto; KAERCHER, Adi Regina; FONSECA, Gabriela de Bem. Políticas para o gerenciamento de estoques: um estudo de caso em uma empresa do ramo metalmecânico de médio porte. XXXII ENEGEP, Bento Gonçalves, 2012.[2] RAZZOLINI FILHO, Edelvino. Administração de material e patrimônio. Curitiba: IESDE Brasil, 2012.[3] IAROZINSKI (2004), lista de itens de serviço ao cliente, como citada no artigo Indicador de nível de serviço, blog Administração Plena, 2013.ExercíciosTente resolver antes de olhar o gabarito, no fim da aula.Fáceis1) (Prova de Logística, CEFET/RJ, 2018) Calcule a acurácia do estoque, sabendo que, de 16.915 itens contados (4.910 da classe A, 9.125 da classe B e 2.880 da classe C), foram encontradas divergências em 268 itens da classe A, 438 da classe B e 55 da classe C.2) (Prova de Logística, CEFET/RJ, 2018) A empresa ZW, que vende materiais de construção, teve vendas de R$ 26.000 no ano passado, com estoque médio de R$ 2.470. Calcule o giro e a cobertura, com ano de 365 dias.3) No almoxarifado central da Indústria LAMA, em 6 meses, foram apresentadas 560 requisições de materiais, com média de 6 unidades por requisição. Foram entregues 2.800 unidades. Qual o nível de atendimento?4) No almoxarifado Verde-Amarelo, em 6 meses, o nível de atendimento foi de 90%. Foram apresentadas 390 requisições com média de 3 itens cada. Quantos itens foram atendidos?5) Uma empresa tem vendas anuais de R$ 1.200.000, lucro anual de R$ 65.000 e R$ 240.000 investidos em estoques (matéria-prima, materiais auxiliares e de manutenção, produtos em processo e acabados). Qual o retorno de capital em estoques?Difíceis6) A empresa MX tem cerca de 10.000 itens diferentes em estoque, com uma média de 20 unidades de cada item. Cada pessoa consegue contar, em média, 100 unidades por minuto. Quantas pessoas são necessárias para contar todo o estoque em 2 dias, com 8 horas de trabalho por dia?7) Três meses depois da contagem do exercício 1, a mesma empresa comparou de novo os registros com a contagem e encontrou estes percentuais de divergência: classe A, 2,5%; classe B, 6,8%; classe C, 8,5%. Qual a acurácia agora?8) Qual o giro do estoque se o custo anual das mercadorias vendidas é de R$ 36.000 e o estoque médio é de R$ 6.000? Qual seria a redução do estoque se o giro subisse para 12 vezes por ano? Se o custo de estocagem é de 25% do estoque médio por ano, de quanto seria a economia?9) Uma indústria implantou um sistema informatizado de controle de estoques. O estoque inicial no mês 1 era de R$ 135.000. Nos quatro meses seguintes as entradas foram de R$ 115.000, R$ 0, R$ 235.000 e R$ 186.000, e as saídas de R$ 112.700, R$ 95.500, R$ 98.000 e R$ 106.000. Monte a tabela de estoques, calcule a cobertura no período e explique o que ela significa.10) Uma empresa levantou os seguintes dados anuais: valor dos materiais consumidos no ano, R$ 5.345.287,35; valor do estoque médio, R$ 386.435,00; índice médio de faltas de material, 13%. Determine o nível de serviço, o giro e a cobertura (ano de 365 dias).Gabarito1) Cerca de 95,5%. Divergências: 268 + 438 + 55 = 761 itens. Itens sem divergência: 16.915 − 761 = 16.154. Acurácia = 16.154 ÷ 16.915 ≈ 0,955.2) Giro = 26.000 ÷ 2.470 ≈ 10,5 vezes por ano (10,53). Cobertura = 365 ÷ 10,53 ≈ 34,7 dias. Se as vendas estiverem a preço de venda e o estoque a custo, o giro real é menor que esse; o ideal seria usar o custo das mercadorias vendidas.3) Cerca de 83,3%. Unidades solicitadas: 560 × 6 = 3.360. Nível de atendimento em unidades = 2.800 ÷ 3.360 ≈ 0,833.4) 1.053 itens. Solicitados: 390 × 3 = 1.170; atendidos: 90% × 1.170 = 1.053.5) RC = 65.000 ÷ 240.000 ≈ 0,27, ou 27% ao ano. Cada real parado em estoque está associado a 27 centavos de lucro por ano. Para saber se é bom, compare com o custo do capital da empresa. (As vendas de R$ 1.200.000 não entram na conta: são um dado a mais, para você escolher o certo.)6) 3 pessoas.Unidades: 10.000 × 20 = 200.000.Tempo de contagem: 200.000 ÷ 100 = 2.000 minutos; 2.000 ÷ 60 ≈ 33,3 horas.Horas de cada pessoa nos dois dias: 2 × 8 = 16 horas.Pessoas: 33,3 ÷ 16 ≈ 2,08. Como não existe fração de pessoa, arredonda-se para cima: 3. Com 2 pessoas a contagem não termina no prazo.7) Cerca de 94,2%.Itens com divergência: classe A, 4.910 × 2,5% = 122,75; classe B, 9.125 × 6,8% = 620,5; classe C, 2.880 × 8,5% = 244,8. Total ≈ 988.Acurácia = 1 − 988 ÷ 16.915 ≈ 0,942.Não basta tirar a média simples dos três percentuais, porque as classes têm quantidades diferentes de itens.8) Giro = 36.000 ÷ 6.000 = 6 vezes por ano.Com giro 12, o estoque médio passa a 36.000 ÷ 12 = R$ 3.000: redução de 6.000 − 3.000 = R$ 3.000.Economia: 25% × 3.000 = R$ 750 por ano.9) Cobertura ≈ 1,35 mês (cerca de 40 dias).Estoque final = inicial + entradas − saídas; o final de um mês é o inicial do seguinte; médio = (inicial + final) ÷ 2.MêsInicialEntradasSaídasFinalMédio1135.000115.000112.700137.300136.1502137.300095.50041.80089.550341.800235.00098.000178.800110.3004178.800186.000106.000258.800218.800Total / média412.200138.700Saída média mensal: 412.200 ÷ 4 = 103.050.Cobertura = 138.700 ÷ 103.050 ≈ 1,35 mês; giro = 412.200 ÷ 138.700 ≈ 2,97 no quadrimestre (e 4 meses ÷ 2,97 ≈ 1,35 mês, o mesmo resultado).Significa que, em média, o estoque mantido no período dava para atender cerca de 1,35 mês de saídas sem reposição. Repare que o estoque final, de 258.800, já cobre 258.800 ÷ 103.050 ≈ 2,5 meses: o estoque está crescendo.10) Nível de serviço = 1 − 0,13 = 87%.Giro = 5.345.287,35 ÷ 386.435,00 ≈ 13,8 vezes por ano (13,83).Cobertura = 365 ÷ 13,83 ≈ 26,4 dias.
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