Na aula passada, dominamos o prefixado: taxa travada, preço oscilando com a curva, marcação a mercado dando sustos. Hoje conhecemos os outros dois membros da família dos títulos públicos — e eles não poderiam ser mais diferentes entre si.De um lado, a LFT (Tesouro Selic): o título mais manso do mercado, que quase não oscila e por isso virou sinônimo de reserva de emergência. Do outro, o Tesouro IPCA+ (NTN-B): o único que garante ganho acima da inflação — e, paradoxalmente, o mais arisco de todos na marcação a mercado. Entender por que o "mais seguro contra a inflação" é também o que mais balança no curto prazo é o objetivo central desta aula.1. O conceito que unifica tudo: o VNALTN tem valor nominal fixo de R$ 1.000. LFT e NTN-B, não: o valor de resgate delas cresce ao longo do tempo, acompanhando um indexador. Esse valor que cresce tem nome: VNA — Valor Nominal Atualizado.Funciona assim: ambas nasceram valendo R$ 1.000 em uma data-base no ano 2000. Desde então:O VNA da LFT é corrigido, dia útil após dia útil, pela taxa Selic.O VNA da NTN-B é corrigido, mês a mês, pela variação do IPCA.Mais de duas décadas de correção depois, esses VNAs valem hoje vários milhares de reais cada. O preço de mercado do título é, então, uma cotação aplicada sobre o VNA:Preço = VNA × CotaçãoSe a cotação é 100%, o título é negociado "ao par" — vale exatamente o VNA. Cotação abaixo de 100% é deságio; acima, ágio. E é na cotação que mora a taxa que o mercado negocia.O Valor Nominal Atualizado (VNA) da LFT e o da NTN-B são corrigidos, respectivamente, por qual indexador?Gabarito: Taxa Selic e IPCA — a LFT acompanha a Selic diária (por isso é o "Tesouro Selic") e a NTN-B acompanha a inflação oficial medida pelo IPCA (por isso é o "Tesouro IPCA+").2. LFT (Tesouro Selic): o título que anda de escada rolanteA LFT é um título pós-fixado puro: seu VNA sobe todo dia útil exatamente o que a Selic render. Se a Selic está em 15% ao ano, o VNA sobe aqueles 0,0555% ao dia útil que calculamos na Aula 3 — dia após dia, sem sobressaltos, como uma escada rolante.2.1 Então a LFT não tem preço de mercado?Tem, e aqui está a sutileza que cai em prova. A LFT é negociada com uma pequena taxa de ágio ou deságio sobre o VNA — em geral, centésimos de ponto percentual (algo como Selic + 0,05% ou Selic − 0,02%). Essa taxa reflete oferta e demanda pelo título e a percepção de risco no prazo.Consequência prática: a marcação a mercado da LFT existe, mas é minúscula. Se o deságio oscilar de 0,02% para 0,10%, o preço mexe frações de porcento — nada comparável ao tombo de 8,5% da LTN longa que vimos na Aula 4. Em episódios raros de estresse (como em 2002 e em momentos de 2020-2021), o deságio das LFTs chegou a abrir o suficiente para gerar dias negativos em fundos DI, surpreendendo todo mundo — a exceção que confirma a regra.2.2 Para que servePor acompanhar a taxa básica com oscilação quase nula, a LFT é o instrumento natural para reserva de emergência e caixa de curto prazo: liquidez diária, sem risco relevante de sair no prejuízo por causa da marcação. O custo dessa paz de espírito? Nenhum prêmio: você ganha a Selic, nem mais, nem menos — e, se o Copom cortar a taxa, seu rendimento cai junto.Um investidor precisa montar uma reserva de emergência com liquidez diária e mínima oscilação de preço. Entre os títulos públicos, o mais adequado é...Gabarito: A LFT (Tesouro Selic), pós-fixada à taxa básica — o VNA cresce diariamente com a Selic e a marcação a mercado é mínima. Prefixados e NTN-Bs longas podem estar em forte baixa exatamente no dia da emergência.3. Tesouro IPCA+ (NTN-B): o contrato contra a inflaçãoA NTN-B promete o que nenhum outro título consegue: juro real garantido. Quem compra "IPCA + 6% ao ano" e leva até o vencimento receberá a inflação do período, seja ela qual for, MAIS 6% ao ano de ganho real de poder de compra.O mecanismo: o VNA cuida da inflação (sobe com o IPCA todo mês) e a taxa contratada na compra — os "+ 6%" — vem do deságio na cotação, exatamente como o deságio da LTN embutia a taxa prefixada.3.1 Duas versões do mesmo títuloTesouro IPCA+ (NTN-B Principal): zero cupom — paga tudo de uma vez no vencimento. Estrutura idêntica à da LTN, só que sobre um VNA que cresce com o IPCA.Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais (NTN-B): paga cupons semestrais de juros ao longo da vida e o principal no final. Preferida por quem quer renda periódica — mas cada cupom recebido sofre imposto e precisa ser reinvestido.3.2 Juro real × juro nominal: a equação de FisherEste é o momento mais importante da aula. A relação entre o juro nominal (o que o extrato mostra), o juro real (o que seu poder de compra ganha) e a inflação NÃO é uma subtração simples — é uma divisão:(1 + i nominal) = (1 + i real) × (1 + inflação)Exemplo 1 — do nominal para o real: um prefixado paga 12% ao ano e a inflação foi de 5%. O ganho real foi:i real = 1,12 / 1,05 − 1 = 6,67% ao ano (e não os 7% da subtração ingênua!)Exemplo 2 — do real para o nominal: uma NTN-B contratada a IPCA + 6%, num ano em que o IPCA fecha em 4%, rende nominalmente:i nominal = 1,06 × 1,04 − 1 = 10,24% ao ano (e não 10%!)A diferença parece pequena, mas em prazos de 10, 20, 30 anos — os prazos típicos das NTN-Bs — o efeito composto é enorme. E bancas de prova ADORAM oferecer a subtração simples como alternativa-armadilha.Uma aplicação rendeu 15% nominais em um ano no qual a inflação foi de 10%. Pela equação de Fisher, o ganho real foi de aproximadamente...Gabarito: 4,55% — i real = 1,15/1,10 − 1 = 0,04545. A alternativa de 5% é a subtração simples (15% − 10%), a armadilha clássica: quanto maior a inflação, mais a subtração erra.4. O paradoxo da NTN-B: proteção que balançaAgora, o aparente contrassenso. Se a NTN-B protege da inflação, por que ela despenca (ou dispara) na marcação a mercado?Porque a parte "+ 6%" é, na prática, uma taxa prefixada — a taxa de juro REAL. E taxa prefixada, como você aprendeu na Aula 4, tem preço que anda na gangorra: se o juro real de mercado sobe de 6% para 7%, o preço da sua NTN-B a 6% cai. E como as NTN-Bs têm os vencimentos mais longos do mercado (2035, 2045, 2060...), o efeito do prazo que vimos na Aula 4 aparece aqui na sua forma mais extrema: uma NTN-B 2060 pode oscilar mais de 10% num único trimestre.Em resumo, a NTN-B tem duas garantias no vencimento (inflação + taxa real contratada) e nenhuma garantia no meio do caminho. É o título perfeito para objetivos longos com data certa — aposentadoria é o exemplo canônico — e o pior possível para dinheiro que pode ser sacado a qualquer momento.Uma NTN-B foi comprada a IPCA + 6% ao ano. Meses depois, a taxa de juro real negociada para o mesmo vencimento subiu para IPCA + 7%. O preço de mercado desse título...Gabarito: Caiu, pois a taxa real funciona como um componente prefixado — vale a mesma gangorra da Aula 4, agora aplicada ao juro real. A correção pelo IPCA protege o VNA, não a cotação.Pegadinha fina de prova: "a NTN-B garante ganho real" é verdade CONDICIONAL — garante ganho real de IPCA + taxa contratada PARA QUEM LEVA ATÉ O VENCIMENTO. Quem vende antes pode ter até prejuízo nominal, se o juro real de mercado tiver subido o suficiente. Mesma lógica da LTN, agora em versão "real".5. O retrato de família: os três títulos lado a ladoFechando o bloco de títulos públicos, o quadro comparativo que organiza tudo:LTN (Tesouro Prefixado) — indexador: nenhum (taxa nominal travada). Risco de marcação: alto, cresce com o prazo. Uso típico: travar taxa quando se espera queda dos juros; objetivos com data casada ao vencimento.LFT (Tesouro Selic) — indexador: Selic diária. Risco de marcação: mínimo. Uso típico: reserva de emergência, caixa, espera de oportunidades.NTN-B (Tesouro IPCA+) — indexador: IPCA + taxa real prefixada. Risco de marcação: o mais alto do mercado nos prazos longos. Uso típico: aposentadoria e objetivos longos com proteção de poder de compra.A pergunta-guia para qualquer alocação: qual é o prazo do objetivo e o que acontece se eu precisar sair antes? Respondida ela, o título certo se escolhe quase sozinho.“O investidor de renda fixa não escolhe entre ganhar mais ou menos; escolhe qual risco aceita carregar: o de taxa, o de inflação ou o de oportunidade.”- Síntese de mesa de renda fixa6. Amarrando tudoO essencial da aula:VNA é o valor nominal que cresce com o indexador: Selic diária na LFT, IPCA mensal na NTN-B. Preço = VNA × cotação, com a taxa negociada morando no ágio/deságio da cotação.A LFT é o pós-fixado puro: sobe de escada rolante, marcação mínima, ideal para reserva — rende a Selic e nada além dela.A NTN-B garante juro real (IPCA + taxa) no vencimento; a relação entre nominal, real e inflação segue a equação de Fisher — divisão, nunca subtração.O componente de taxa real da NTN-B se comporta como um prefixado: juro real sobe, preço cai — e os prazos longuíssimos amplificam tudo.Na próxima aula, saímos dos títulos públicos e entramos no crédito privado: CDBs e debêntures — onde, além do risco de mercado, entra em cena um personagem novo: o risco de crédito. O spread que estudamos na Aula 1 finalmente vai ganhar preço.Exercício para discutir em salaO caso das três irmãs. Vamos pensar juntos.Três irmãs receberam R$ 100.000 de herança cada uma e pediram sua ajuda como consultor:Ana, 28 anos, quer deixar o dinheiro rendendo enquanto junta coragem para empreender — pode precisar sacar tudo em três meses ou em três anos, não sabe.Beatriz, 35 anos, vai usar o dinheiro daqui a exatos 4 anos, como entrada de um apartamento cujo contrato já assinou. Acredita que a Selic vai cair bastante nesse período.Carolina, 35 anos, não precisa do dinheiro por 25 anos: é sua aposentadoria. Seu maior medo é "chegar aos 60 e o dinheiro não comprar o que compra hoje".Discuta com seu grupo:(a) Qual título público combina com cada irmã, e por quê?(b) O que acontece com cada uma se a Selic despencar nos próximos dois anos? E se o juro real de mercado subir forte?(c) Beatriz deveria escolher um prefixado com vencimento em 4 anos ou em 10 anos? O que o descasamento de prazo faria com ela?(d) Carolina viu que a NTN-B 2050 "caiu 12% no ano passado" e ficou com medo. Que argumento você usaria — e que pergunta faria para testar se ela aguenta o caminho?(e) Existe uma resposta única e "certa" para as três? O que além do prazo deveria entrar na conversa?Direcionamento para o professor: (a) Ana → LFT (liquidez com marcação mínima); Beatriz → prefixado (ou NTN-B curta) com vencimento casado nos 4 anos: trava a taxa alta antes dos cortes que ela espera; Carolina → NTN-B longa, o único instrumento que garante poder de compra + juro real no horizonte de 25 anos. (b) Selic caindo: Ana rende menos (custo do pós-fixado), Beatriz comemora a valorização do prefixado, Carolina vê a NTN-B subir se o juro real acompanhar; juro real subindo: Carolina vê o extrato despencar — e é aí que entra a diferença entre perda potencial e cristalizada da Aula 4. (c) Vencimento em 4 anos: casar prazo do título com prazo do objetivo elimina o risco de vender no pior momento; o de 10 anos a deixaria refém da marcação na data da compra do imóvel. (d) A queda de 12% é preço de saída, não perda para quem carrega até 2050; a pergunta-teste: "você consegue NÃO olhar o aplicativo por alguns anos?". (e) Não há resposta única: tolerância a oscilação, necessidade de liquidez parcial, diversificação entre vencimentos (escadinha) e tributação entram na conversa. Fechamento: o título não é bom nem mau — é adequado ou inadequado ao objetivo.Exercícios1) (Inédita - estilo CESGRANRIO) A Letra Financeira do Tesouro (LFT) é um título público federal cuja rentabilidade está vinculada:A) à variação diária da taxa Selic.B) à variação mensal do IPCA, acrescida de juros semestrais.C) a uma taxa prefixada definida no leilão de emissão.D) à variação cambial do dólar norte-americano.E) à Taxa Referencial (TR), acrescida de 6% ao ano.2) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Nos títulos públicos indexados, o preço de negociação é obtido pela aplicação de uma cotação sobre o Valor Nominal Atualizado (VNA). Quando a cotação é inferior a 100%, diz-se que o título é negociado com:A) deságio, e a taxa efetiva da operação supera a variação do indexador.B) ágio, e a taxa efetiva da operação supera a variação do indexador.C) deságio, e a taxa efetiva da operação é inferior à variação do indexador.D) ágio, e a taxa efetiva iguala a variação do indexador.E) cotação ao par, sem efeito sobre a taxa da operação.3) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Uma aplicação apresentou rentabilidade nominal de 12% em um ano no qual a inflação medida pelo IPCA foi de 5%. Pela equação de Fisher, a rentabilidade real dessa aplicação foi de aproximadamente:A) 6,67% ao ano.B) 7,00% ao ano.C) 5,83% ao ano.D) 17,60% ao ano.E) 2,33% ao ano.4) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Uma NTN-B Principal foi adquirida à taxa de IPCA + 6% ao ano. Em um período de 12 meses no qual o IPCA acumulou 4%, a rentabilidade nominal do título, para quem o carregou entre datas equivalentes, foi de aproximadamente:A) 10,24% ao ano.B) 10,00% ao ano.C) 6,00% ao ano.D) 24,00% ao ano.E) 9,80% ao ano.5) (Inédita - estilo FGV) Sobre o comportamento dos títulos públicos na marcação a mercado, assinale a afirmativa correta.A) A NTN-B de prazo longo tende a apresentar a maior volatilidade de preço entre os títulos do Tesouro, pois combina taxa real prefixada com vencimentos estendidos.B) A LFT apresenta alta volatilidade de preço, pois acompanha as decisões do Copom.C) A LTN não sofre marcação a mercado, por ter valor nominal fixo de R$ 1.000,00.D) A correção do VNA pelo IPCA impede qualquer oscilação no preço da NTN-B.E) Títulos pós-fixados e prefixados apresentam a mesma sensibilidade a variações da taxa de juros.6) (Inédita - estilo CESGRANRIO) A diferença fundamental entre a NTN-B (Tesouro IPCA+ com Juros Semestrais) e a NTN-B Principal é que a primeira:A) paga cupons de juros semestrais ao longo da vida do título, enquanto a segunda concentra todo o pagamento no vencimento.B) é corrigida pelo IGP-M, enquanto a segunda é corrigida pelo IPCA.C) é pós-fixada à Selic, enquanto a segunda é prefixada.D) não sofre marcação a mercado, ao contrário da segunda.E) tem valor nominal fixo de R$ 1.000,00, enquanto a segunda tem VNA.7) (Inédita - estilo CEBRASPE, julgue o item) Julgue o item: "Por garantir rentabilidade vinculada ao IPCA acrescida de taxa real contratada, a NTN-B assegura ao investidor a impossibilidade de perda nominal, ainda que o título seja vendido antes do vencimento."( ) Certo ( ) Errado8) (Inédita - estilo CEBRASPE, julgue o item) Julgue o item: "Em razão de seu Valor Nominal Atualizado ser corrigido diariamente pela taxa Selic, a LFT apresenta baixa volatilidade de preço, restrita às variações do ágio ou deságio com que o título é negociado."( ) Certo ( ) ErradoGabarito1) A — A LFT é o pós-fixado puro à Selic diária. A letra B descreve a NTN-B; a letra C, a LTN. Montar esse "retrato de família" mentalmente resolve metade das questões do tema.2) A — Cotação abaixo de 100% = deságio: paga-se menos que o VNA, logo, além da variação do indexador, embolsa-se a diferença — a taxa efetiva supera o indexador. É o mesmo princípio do deságio da LTN, aplicado sobre um valor nominal que cresce.3) A — i real = 1,12/1,05 − 1 = 6,67%. A letra B (7%) é a subtração simples, armadilha padrão; a letra D é a multiplicação indevida dos efeitos.4) A — i nominal = 1,06 × 1,04 − 1 = 10,24%. A letra B (10%) é a soma simples — a equação de Fisher compõe, não soma.5) A — Taxa real prefixada + prazos longuíssimos = a maior sensibilidade do mercado. A LFT (letra B) é justamente o oposto; a LTN (letra C) tem nominal fixo, mas PREÇO flutuante; o IPCA corrige o VNA, não trava a cotação (letra D).6) A — Cupom semestral × zero cupom: essa é a única diferença estrutural. Ambas são IPCA + taxa real, ambas têm VNA, ambas sofrem marcação.7) Errado — A garantia de IPCA + taxa real vale no vencimento. Na venda antecipada, prevalece o preço de mercado: se o juro real subiu o bastante, a perda pode ser inclusive nominal.8) Certo — É a descrição precisa da LFT: o VNA acompanha a Selic dia a dia e a oscilação de preço se restringe às pequenas variações de ágio/deságio — mínima, embora não nula (como se viu em episódios de estresse de mercado).
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