Precificação de títulos prefixados: a matemática do Tesouro Prefixado (LTN)

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Aula explica como calcular o preço de títulos públicos prefixados (LTN/Tesouro Prefixado) com a convenção de 252 dias úteis, demonstrando a relação inversa entre preço e taxa, a marcação a mercado e os efeitos de vender antes do vencimento, com exemplos resolvidos e exercícios.

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Na aula passada, você aprendeu a ler a curva de juros. Hoje ela sai do gráfico e entra na calculadora: vamos precificar nosso primeiro título, o Tesouro Prefixado, conhecido no mercado pelo nome técnico de LTN (Letra do Tesouro Nacional).

Ao final desta aula, você saberá responder três perguntas que todo investidor de renda fixa deveria dominar — e que a maioria não domina: quanto vale um título prefixado hoje? Por que o preço cai quando o juro sobe? E por que o aplicativo do Tesouro Direto às vezes mostra sua posição no vermelho, mesmo num título "sem risco"?

1. O título mais simples do mundo

A LTN é o que o mercado chama de título zero cupom (ou "bullet"): ela não paga nada durante a vida e entrega um único pagamento no vencimento, o valor nominal de R$ 1.000,00. Sempre R$ 1.000, para qualquer LTN, em qualquer vencimento.

Se o valor final é fixo, onde está o ganho? No deságio: você compra o título hoje por menos de R$ 1.000, e a diferença até os R$ 1.000 do resgate é a sua rentabilidade. Quanto menor o preço de compra, maior a taxa embutida — e vice-versa.

É por isso que a LTN é o laboratório perfeito para aprender precificação: um único fluxo, uma única conta, e toda a lógica da renda fixa exposta.

Uma LTN com vencimento em 2029 e outra com vencimento em 2032 serão resgatadas, no vencimento, por qual valor?

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Gabarito: R$ 1.000,00 cada uma, independentemente do vencimento — o valor nominal da LTN é sempre R$ 1.000. O que muda entre os vencimentos é o preço de compra hoje: quanto mais longo o prazo, maior o deságio.

2. A fórmula: trazer R$ 1.000 a valor presente

Precificar a LTN é responder: quanto vale hoje o direito de receber R$ 1.000 no vencimento? É pura Aula 2: valor presente com juros compostos, na convenção brasileira de 252 dias úteis.

P = 1.000 / (1 + i)^(du/252)

Onde P é o preço de compra (chamado de PU, preço unitário), i é a taxa anual negociada e du é o número de dias úteis até o vencimento.

2.1 Exemplo resolvido

Uma LTN vence em exatos 2 anos (504 dias úteis) e está sendo negociada a 12% ao ano. Quanto custa?

P = 1.000 / (1,12)^(504/252) = 1.000 / (1,12)² = 1.000 / 1,2544 = R$ 797,19

Interpretação: pagando R$ 797,19 hoje e recebendo R$ 1.000,00 daqui a dois anos, sua rentabilidade é exatamente 12% ao ano, ao custo de deixar o dinheiro parado até lá.

Na HP-12C: 1000 [FV], 12 [i], 2 [n], [PV] → −797,19. No Excel: =1000/(1+12%)^(504/252) ou =VP(12%;2;;1000).

2.2 O caminho de volta: do preço para a taxa

O mercado também faz a conta reversa. Se uma LTN de 1 ano (252 du) é negociada a R$ 892,86, qual a taxa embutida?

i = (1.000 / 892,86)^(252/252) − 1 = 1,12 − 1 = 12% ao ano

Preço e taxa são duas formas de dizer a mesma coisa. Nas mesas de operação, negocia-se a taxa; o PU é consequência.

Uma LTN vence em 252 dias úteis e é negociada a 10% ao ano. Seu preço unitário é de aproximadamente...

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Gabarito: R$ 909,09 — P = 1.000/(1,10)^(252/252) = 1.000/1,10 = 909,09. A letra "R$ 900,00" é a tentação de quem desconta por juros simples (1.000 − 10%): cuidado, a convenção é composta!

3. A gangorra: por que preço e taxa andam em direções opostas

Olhe de novo para a fórmula: a taxa está no denominador. Consequência inevitável:

Taxa sobe → preço cai. Taxa cai → preço sobe.

Essa relação inversa é, talvez, o conceito mais importante de toda a renda fixa — e o mais contraintuitivo para o iniciante. Vamos vê-la em números, continuando o exemplo da LTN de 2 anos comprada a 12% (R$ 797,19):

Se, no dia seguinte, a taxa de mercado para esse vencimento sobe para 14%: P = 1.000/(1,14)² = R$ 769,47. Seu título passou a valer R$ 27,72 a menos (−3,5%).

Se, em vez disso, a taxa cai para 10%: P = 1.000/(1,10)² = R$ 826,45. Seu título se valorizou R$ 29,26 (+3,7%).

A intuição econômica: se o mercado agora oferece títulos novos pagando 14%, ninguém pagará o preço antigo pelo seu título de 12% — para que ele "renda 14%" a um novo comprador, seu preço precisa cair. O título velho se ajusta ao mundo novo via preço.

Após a compra de uma LTN, a taxa de juros de mercado para aquele vencimento subiu. O preço de mercado do título...

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Gabarito: Caiu, pois preço e taxa têm relação inversa — a taxa está no denominador do valor presente. Juro novo mais alto desvaloriza o título velho que paga juro menor.

4. Marcação a mercado: o extrato no vermelho

Agora você já pode entender a cena que assusta milhares de investidores: a pessoa compra Tesouro Prefixado, "o investimento mais seguro do Brasil", abre o aplicativo dois meses depois e vê rentabilidade negativa.

O que aconteceu? Marcação a mercado: o Tesouro Direto (e todo fundo de investimento, por obrigação regulatória) atualiza diariamente o valor da sua posição pelo preço que o título teria se fosse vendido hoje — calculado com a taxa atual da curva de juros, aquela que você aprendeu a ler na Aula 3. Se a curva abriu depois da sua compra, o PU caiu, e o extrato mostra o prejuízo potencial.

Potencial é a palavra-chave. Aqui entra a dupla de regras de ouro do prefixado:

Regra 1 — Levou até o vencimento: recebeu exatamente a taxa contratada. Os R$ 1.000 no final não mudam; quem comprou a 12% e segurou, ganhou 12% ao ano, aconteça o que acontecer com a curva no meio do caminho.

Regra 2 — Vendeu antes: recebeu o preço de mercado do dia. Pode ser mais (se as taxas caíram) ou menos (se subiram) do que a rentabilidade contratada. O "risco" do prefixado mora inteiro aqui.

Um investidor comprou uma LTN a 12% ao ano e a manteve até o vencimento. Durante o período, as taxas de mercado oscilaram entre 10% e 15%. A rentabilidade anual efetivamente obtida por ele foi de...

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Gabarito: 12% ao ano, a taxa contratada na compra — levando ao vencimento, o investidor recebe os R$ 1.000 nominais, e a conta entre preço pago e valor de resgate devolve exatamente a taxa da compra. A oscilação intermediária só afeta quem vende antes.

Pegadinha de prova (e da vida real): "título prefixado tem rentabilidade garantida" é verdade condicional — garantida NO VENCIMENTO. Antes dele, o título flutua todo dia com a curva. Renda fixa não é preço fixo!

5. Prazo importa: o efeito alavanca do vencimento

Compare duas LTNs no mesmo choque de juros, com a taxa saltando de 12% para 14%:

LTN de 1 ano: preço vai de R$ 892,86 para R$ 877,19 → queda de 1,8%.

LTN de 5 anos: preço vai de R$ 567,43 para R$ 519,37 → queda de 8,5%.

Mesmo choque, estrago quase cinco vezes maior no título longo. Faz sentido: no título de 5 anos, você trava a taxa antiga por muito mais tempo — o desconto acumula expoente. Quanto maior o prazo, maior a sensibilidade do preço às variações de taxa.

Essa intuição tem nome, sobrenome e fórmula: chama-se duration, e é o tema da Aula 7. Por ora, guarde o princípio: prazo longo amplifica tanto o ganho quanto a perda da marcação a mercado.

Duas LTNs, uma com vencimento em 1 ano e outra em 5 anos, sofrem a mesma elevação na taxa de juros de mercado. Sobre a variação percentual de preço, é correto afirmar que...

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Gabarito: A LTN de 5 anos cai proporcionalmente mais que a de 1 ano — o prazo maior amplifica o efeito da taxa no desconto composto. É a semente do conceito de duration, que formalizaremos na Aula 7.

“No vencimento, o prefixado cumpre a promessa. No meio do caminho, ele cobra coragem.”

- Ditado de mesa de renda fixa

6. Amarrando tudo

O essencial da aula em cinco linhas:

A LTN (Tesouro Prefixado) é um título zero cupom que paga R$ 1.000 no vencimento; o ganho está no deságio.

O preço é o valor presente do nominal: P = 1.000/(1+i)^(du/252) — e da mesma fórmula se extrai a taxa a partir do preço.

Preço e taxa têm relação inversa: a taxa mora no denominador.

A marcação a mercado reprecifica o título diariamente pela curva de juros: no vencimento vale a taxa contratada; antes dele, vale o preço do dia.

Prazos longos amplificam a sensibilidade do preço — a intuição que virará a duration da Aula 7.

Na próxima aula, saímos do prefixado puro: vamos precificar a LFT (Tesouro Selic) e o Tesouro IPCA+ (NTN-B) — e entender por que um deles quase não sofre marcação a mercado enquanto o outro é o mais sensível de todos.

Exercício para discutir em sala

O caso do investidor em pânico. Vamos pensar juntos.

Em março, Marina comprou R$ 20.000 em Tesouro Prefixado 2031 a uma taxa de 12,5% ao ano, planejando resgatar no vencimento para dar entrada num imóvel. Em agosto, após uma piora fiscal, a taxa desse vencimento foi a 14,8%. Marina abre o aplicativo, vê a posição valendo R$ 18.400 e manda mensagem no grupo da família: "Perdi R$ 1.600 no investimento mais seguro do Brasil! Vou vender tudo antes que piore!"

Discuta com seu grupo:

(a) Marina perdeu R$ 1.600? Em que sentido sim, e em que sentido não?

(b) Se ela vender hoje, o que acontece? E se levar até 2031?

(c) "Vender antes que piore" faz sentido para quem vai carregar até o vencimento? O que precisaria acontecer para a venda antecipada ser a decisão certa?

(d) Se, em vez de subir, a taxa tivesse caído para 10%, o que o aplicativo mostraria? Marina deveria comemorar e vender?

(e) Que pergunta Marina deveria ter se feito ANTES de escolher um prefixado longo para um objetivo com data marcada?

Direcionamento para o professor: (a) A perda é real como preço de saída hoje (marcação a mercado), mas é apenas potencial para quem carrega: no vencimento os R$ 1.000 por título não mudaram — os dois sentidos devem ficar explícitos. (b) Vendendo, cristaliza a perda ao preço de mercado; levando a 2031, recebe exatamente os 12,5% a.a. contratados. (c) Não — vender "antes que piore" só se justifica se ela precisar do dinheiro antes, ou se acreditar que consegue realocar a uma taxa que compense a perda cristalizada; para o objetivo no vencimento, a oscilação é ruído. (d) Mostraria lucro acima do contratado; vender e realizar o ganho pode fazer sentido, mas o reinvestimento seria a taxas menores (10%) — não existe almoço grátis. (e) Casamento entre prazo do título e prazo do objetivo + tolerância a ver o extrato oscilar. Fechamento: o vilão da história não é o título, é o descasamento entre produto e horizonte — e a marcação a mercado é transparência, não defeito.

Exercícios

1) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Uma LTN com vencimento em 252 dias úteis é negociada à taxa de 12% ao ano. O preço unitário aproximado desse título é de:

A) R$ 892,86.

B) R$ 880,00.

C) R$ 907,03.

D) R$ 797,19.

E) R$ 1.120,00.

2) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Uma LTN com vencimento em 126 dias úteis (meio ano em dias úteis) é negociada a 12% ao ano. Considerando a convenção de 252 dias úteis e capitalização composta, seu preço unitário aproximado é de:

A) R$ 944,91.

B) R$ 940,00.

C) R$ 892,86.

D) R$ 887,79.

E) R$ 943,40.

3) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Um investidor pagou R$ 850,00 por uma LTN com vencimento em exatamente 252 dias úteis. A taxa anual embutida nessa operação é de aproximadamente:

A) 17,6% ao ano.

B) 15,0% ao ano.

C) 8,5% ao ano.

D) 12,0% ao ano.

E) 21,3% ao ano.

4) (Inédita - estilo FGV) Um investidor adquiriu uma LTN de 2 anos à taxa de 12% ao ano. Uma semana depois, a taxa de mercado para o mesmo vencimento recuou para 10% ao ano. Sobre a posição do investidor, é correto afirmar que:

A) o preço de mercado do título subiu, gerando ganho potencial na marcação a mercado.

B) o preço de mercado do título caiu, gerando perda potencial na marcação a mercado.

C) o preço de mercado permaneceu inalterado, pois a taxa da compra é garantida.

D) a rentabilidade no vencimento passou a ser de 10% ao ano.

E) o título foi automaticamente resgatado pelo Tesouro Nacional.

5) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Sobre a marcação a mercado de títulos públicos prefixados, é correto afirmar que:

A) o investidor que mantém o título até o vencimento recebe a taxa contratada na compra, independentemente das oscilações intermediárias de preço.

B) a rentabilidade contratada é garantida ao investidor em qualquer data de venda.

C) a marcação a mercado só se aplica a títulos de renda variável.

D) o valor nominal de resgate da LTN é ajustado diariamente pela curva de juros.

E) quedas na taxa de juros de mercado reduzem o preço dos títulos prefixados em carteira.

6) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Duas LTNs, com vencimentos em 1 ano e em 5 anos, estão sujeitas à mesma elevação de 2 pontos percentuais nas taxas de mercado. Comparando os efeitos sobre os preços:

A) a LTN de 5 anos sofrerá queda percentual maior, pois prazos mais longos ampliam a sensibilidade do preço à taxa.

B) a LTN de 1 ano sofrerá queda percentual maior, pois vence primeiro.

C) as duas sofrerão a mesma queda percentual, pois o choque de taxa é idêntico.

D) nenhuma sofrerá queda, pois o valor nominal de R$ 1.000 é fixo.

E) a LTN de 5 anos se valorizará, compensando a elevação da taxa.

7) (Inédita - estilo CEBRASPE, julgue o item) A respeito dos títulos públicos prefixados, julgue o item: "Por ter rentabilidade definida no momento da compra, a LTN não expõe o investidor a risco de perda nominal caso ele venda o título antes do vencimento."

( ) Certo ( ) Errado

8) (Inédita - estilo CEBRASPE, julgue o item) Julgue o item: "Na precificação de uma LTN, utiliza-se o desconto do valor nominal de R$ 1.000,00 pela taxa negociada, considerando o número de dias úteis até o vencimento na base anual de 252 dias úteis."

( ) Certo ( ) Errado

Gabarito

1) A — P = 1.000/(1,12)^(252/252) = 1.000/1,12 = 892,86. A letra B (R$ 880,00) é o desconto por juros simples — erro clássico; a letra D é o preço para 2 anos, não 1.

2) A — P = 1.000/(1,12)^(126/252) = 1.000/(1,12)^0,5 = 1.000/1,0583 = 944,91. Meio período na convenção composta usa expoente 0,5, e não metade da taxa (que daria a letra E, 1.000/1,06 = 943,40... repare como os valores são próximos: a banca explora exatamente essa vizinhança).

3) A — i = (1.000/850) − 1 = 0,1765 → 17,6% ao ano. Quanto maior o deságio, maior a taxa embutida.

4) A — Taxa caiu de 12% para 10%: o preço subiu (de R$ 797,19 para R$ 826,45), gerando ganho potencial. Para quem carrega até o vencimento, porém, a rentabilidade segue sendo os 12% contratados — a letra D confunde a taxa de mercado com a taxa da compra.

5) A — É a regra de ouro do prefixado. A letra D é uma pegadinha forte: o que a marcação ajusta diariamente é o PREÇO do título; o valor nominal de resgate (R$ 1.000) nunca muda.

6) A — Mesmo choque, expoente maior: o desconto composto amplifica o efeito da taxa nos prazos longos. É a intuição da duration (Aula 7).

7) Errado — Antes do vencimento, a LTN vale o preço de mercado do dia; se as taxas subiram, a venda antecipada pode gerar perda inclusive nominal. A rentabilidade contratada só é assegurada no vencimento.

8) Certo — É exatamente a fórmula P = 1.000/(1+i)^(du/252), com a convenção brasileira de 252 dias úteis e capitalização composta.

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