Risco e retorno: volatilidade, correlação e o poder da diversificação

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Aula formaliza o conceito de risco em finanças: retorno esperado, variância e desvio-padrão (volatilidade), o papel da correlação na combinação de ativos, o efeito da diversificação sobre o risco da carteira e a divisão entre risco sistemático e não sistemático, com exemplos numéricos resolvidos

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Na aula passada, a taxa de desconto k ficou definida por uma frase vaga: "taxa livre de risco mais um prêmio pelo risco". Mas o que é, exatamente, risco? Como se mede? E por que dois ativos arriscados, juntos, podem formar uma carteira mais segura que qualquer um deles sozinho?

Esta aula constrói, peça por peça, a resposta que rendeu um prêmio Nobel a Harry Markowitz: risco se mede pela dispersão dos retornos, combina-se pela correlação e reduz-se pela diversificação — o único almoço grátis das finanças. No final, você entenderá por que "não ponha todos os ovos na mesma cesta" deixou de ser provérbio de avó para virar teorema matemático.

1. Risco é dispersão: o retorno esperado e seus desvios

Em finanças, risco não é "chance de algo ruim acontecer" — é incerteza sobre o resultado, para cima e para baixo. Um ativo cujo retorno pode ser −20% ou +40% é mais arriscado que um que oscila entre +8% e +12%, ainda que ambos tenham a mesma média.

O ponto de partida é o retorno esperado: a média dos retornos possíveis, ponderada pelas probabilidades de cada cenário.

E[R] = Σ (probabilidade do cenário × retorno no cenário)

1.1 Exemplo resolvido

A ação da Cia. Ciclotur tem três cenários para o próximo ano:

Recessão (probabilidade 30%): retorno de −10%. Normalidade (40%): +10%. Expansão (30%): +30%.

E[R] = 0,30 × (−10%) + 0,40 × 10% + 0,30 × 30% = −3% + 4% + 9% = 10% ao ano

Uma ação tem 50% de probabilidade de render 20% e 50% de probabilidade de render 0%. Seu retorno esperado é de...

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Gabarito: 10% — E[R] = 0,5 × 20% + 0,5 × 0% = 10%. Repare: o retorno "esperado" pode nunca acontecer de fato (os resultados possíveis são 0% ou 20%) — ele é o centro de gravidade das possibilidades, não uma promessa.

2. Volatilidade: dando número ao nervosismo

Dois ativos podem ter o mesmo E[R] e temperamentos completamente diferentes. A medida da inquietação é a variância — a média ponderada dos desvios ao quadrado em relação ao esperado — e, principalmente, sua raiz quadrada: o desvio-padrão, que o mercado chama de volatilidade (σ), expressa na mesma unidade do retorno (% ao ano).

Continuando a Ciclotur (E[R] = 10%):

Desvios: recessão: −10 − 10 = −20 p.p.; normal: 0; expansão: +20 p.p.

Variância = 0,30 × (−20)² + 0,40 × 0² + 0,30 × (20)² = 120 + 0 + 120 = 240

Volatilidade = √240 ≈ 15,5% ao ano

Leitura de bolso: os retornos da Ciclotur tendem a se espalhar numa faixa de ±15,5 p.p. em torno dos 10% esperados. Para calibrar sua intuição com o mundo real: uma LFT tem volatilidade próxima de zero; o Ibovespa, historicamente, algo na casa de 20–30% ao ano; uma ação individual, muitas vezes bem mais. Maior σ = maior risco — essa é a régua.

Dois fundos entregaram o mesmo retorno médio de 12% ao ano na última década. O fundo Alfa teve desvio-padrão de 5% ao ano; o Beta, de 25% ao ano. É correto afirmar que...

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Gabarito: O Beta foi mais arriscado, pois seus retornos se dispersaram muito mais em torno da média — mesma média, temperamentos opostos: quem precisou resgatar num ano ruim do Beta sentiu a diferença. Risco é a dispersão, não a média.

3. A mágica de Markowitz: 1 + 1 pode ser menos que 2

Agora, o salto conceitual da aula. Intuição ingênua: o risco de uma carteira seria a média dos riscos dos ativos. Errado — e desse erro nasce a moderna teoria de carteiras.

3.1 O experimento da praia

Imagine duas empresas na mesma cidade litorânea:

A Sorveteria Solmar: lucra nos verões escaldantes, sofre nos anos chuvosos. E[R] = 12%, σ = 20%.

A Guarda-Chuvas Torrente: o espelho perfeito — lucra na chuva, sofre no sol. E[R] = 12%, σ = 20%.

Cada uma, sozinha, é uma montanha-russa. Mas e a carteira 50% em cada? Em TODO cenário — sol ou chuva — o que uma perde a outra ganha. O retorno da carteira fica cravado em 12%, com volatilidade zero. Dois ativos arriscados formaram uma carteira sem risco.

3.2 O ingrediente secreto: correlação

O que tornou a mágica possível foi o coeficiente de correlação (ρ) entre os retornos — um número entre −1 e +1 que mede o quanto dois ativos dançam juntos:

ρ = +1: dança perfeitamente sincronizada. Diversificar entre eles não reduz risco nenhum — a carteira é a média dos riscos.

ρ = 0: dançarinos independentes. A diversificação já reduz risco: no nosso par (dois ativos de σ = 20%, meio a meio), a volatilidade da carteira cai para √(0,25×400 + 0,25×400) ≈ 14,1% — abaixo dos 20% de cada um.

ρ = −1: dança em espelho, o caso Solmar × Torrente. Com os pesos certos, o risco pode ser completamente eliminado: σ = 0.

A regra geral que vale a aula: sempre que ρ < 1, o risco da carteira é MENOR que a média ponderada dos riscos individuais. Como praticamente nenhum par de ativos reais tem correlação perfeita, diversificar quase sempre reduz risco sem sacrificar retorno esperado — eis o almoço grátis.

E um aviso de gente grande: correlações não são fixas. Em crises agudas, as correlações entre ativos de risco costumam subir ("na queda, tudo cai junto") — a diversificação protege menos exatamente quando mais se precisa dela. Proteção de verdade contra pânico sistêmico exige ativos de outra natureza (títulos públicos, dólar) — não apenas mais ações diferentes.

Dois ativos apresentam correlação igual a −1 entre seus retornos. Combinando-os em uma carteira com os pesos adequados, é possível...

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Gabarito: Eliminar completamente o risco da carteira — com ρ = −1, os movimentos se cancelam com exatidão e existe uma combinação de pesos com σ = 0. É o caso-limite teórico que revela o mecanismo: o risco conjunto depende de COMO os ativos se movem entre si, não apenas de quanto cada um balança.

4. O limite do almoço grátis: risco sistemático × não sistemático

Se diversificar reduz risco, por que não diversificar ao infinito e zerar tudo? Porque o risco total de qualquer ação tem duas camadas de natureza diferente:

Risco não sistemático (específico ou diversificável): os eventos da empresa ou do setor — a greve na fábrica, a fraude contábil, o concorrente que roubou mercado, a geada na safra. Como são eventos independentes entre as empresas, numa carteira ampla os azares de umas são compensados pelas sortes de outras: esse risco desaparece com a diversificação. Estudos clássicos mostram que uma carteira com algo entre 15 e 30 ações bem espalhadas por setores já elimina a maior parte dele.

Risco sistemático (de mercado, não diversificável): os eventos que atingem todas as empresas ao mesmo tempo — o Copom subindo juros, a recessão, a crise cambial, a pandemia. Não importa quantas ações você tenha: quando a maré baixa, todos os barcos descem. Esse risco não sai por diversificação.

A consequência lógica, que prepara a próxima aula: se o risco específico pode ser eliminado de graça, o mercado não paga prêmio por carregá-lo. O único risco remunerado é o sistemático — e medir a exposição de cada ação a ele é o trabalho de um número chamado beta, a estrela da Aula 12.

Uma greve prolongada paralisa as fábricas de uma única companhia, derrubando o preço de suas ações. Para um investidor diversificado, esse evento representa risco...

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Gabarito: Não sistemático, que a diversificação da carteira dilui — o evento é específico daquela empresa; numa carteira de dezenas de papéis, seu impacto é pequeno e tende a ser compensado. Já uma alta geral de juros seria sistemática: atingiria a carteira inteira.

Mesmo detendo uma carteira com centenas de ações de todos os setores, um investidor continua exposto ao risco...

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Gabarito: Sistemático, ligado a fatores que afetam o mercado como um todo — juros, recessão, crises. A diversificação varre o risco específico, mas o risco de mercado é o piso irredutível: é ele (e só ele) que o mercado remunera com prêmio.

“A diversificação é o único almoço grátis das finanças.”

- Atribuída a Harry Markowitz, prêmio Nobel de 1990

5. Amarrando tudo

O essencial da aula:

Retorno esperado é a média ponderada dos cenários; risco é dispersão, medida pela variância e pelo desvio-padrão (volatilidade).

O risco de uma carteira depende de como os ativos se movem juntos: a correlação (ρ), entre −1 e +1. Com ρ < 1, o risco da carteira fica abaixo da média dos riscos — e com ρ = −1 pode chegar a zero.

Diversificação reduz risco sem reduzir retorno esperado — mas as correlações sobem nas crises, e o almoço grátis encolhe quando o restaurante pega fogo.

O risco total se divide em não sistemático (específico, eliminável com ~15–30 ações diversificadas) e sistemático (de mercado, irredutível). Só o sistemático é remunerado.

Na próxima aula, o gran finale da renda variável: a teoria de carteiras e o CAPM. A fronteira eficiente, o beta como medida do risco que importa — e, finalmente, a fórmula que transforma "taxa livre de risco + prêmio" no número k que faltava no Gordon.

Exercício para discutir em sala

A carteira do comandante. Vamos pensar juntos.

Túlio é comandante de aeronaves de uma grande companhia aérea brasileira, onde trabalha há 15 anos. Orgulhoso da empresa, montou o patrimônio assim: 70% em ações da própria companhia aérea (parte comprada, parte recebida em programas de remuneração), 20% em ações de outras duas empresas de turismo (uma rede de hotéis e uma operadora de viagens) e 10% em conta-corrente. "Invisto no que conheço", diz ele.

Discuta com seu grupo:

(a) Separe os riscos da carteira de Túlio nas duas camadas da aula: o que ali é risco específico e o que é sistemático? A carteira dele está diversificada?

(b) Há um ativo gigante fora da carteira financeira de Túlio: seu capital humano — o fluxo de salários futuros. Qual a correlação entre esse "ativo" e a carteira que ele montou? O que acontece com TUDO ao mesmo tempo num cenário de petróleo em disparada ou de pandemia?

(c) "Invisto no que conheço" é um bom princípio de diversificação? Onde a familiaridade ajuda e onde ela vira armadilha?

(d) Proponham uma reforma da carteira usando os conceitos da aula: que tipos de ativos têm correlação baixa (ou negativa) com o risco aéreo-turismo? Pensem em setores, em renda fixa (Aulas 3–8) e no papel dos 10% em conta-corrente.

(e) Mesmo após a reforma perfeita, que risco Túlio continuará carregando? Existe diversificação contra ele?

Direcionamento para o professor: (a) A carteira tem 90% num único cluster de risco (aéreo-turismo): o "específico" do setor está longe de diluído — greve, acidente, petróleo e câmbio batem em tudo junto; correlações internas altíssimas fazem 3 ativos funcionarem como 1. (b) Correlação fortemente positiva: o salário de Túlio E sua carteira dependem da mesma indústria — num choque do setor ele pode perder emprego e patrimônio simultaneamente (evocar casos reais de funcionários concentrados em ações do próprio empregador); capital humano deve entrar no mapa de riscos. (c) Conhecer ajuda a AVALIAR (Aula 10), mas não protege de concentração — familiaridade gera excesso de confiança e viés de lealdade; conhecer não descorrelaciona. (d) Respostas defensáveis: diversificar amplamente em setores pouco ligados a turismo (utilities, saneamento, bancos, exportadoras — nota fina: petroleiras sobem quando o custo da aérea explode, um hedge natural parcial), índice amplo via ETF para varrer o específico de uma vez, e uma âncora de renda fixa (LFT/IPCA+) como reserva e lastro — os 10% em conta-corrente rendem nada e deveriam ao menos virar LFT (Aula 5). (e) O sistemático: recessão global, juros, crises derrubam a carteira reformada também — contra ele não há diversificação em ações, apenas alocação entre CLASSES (renda fixa, moedas) e o prêmio que o mercado paga por carregá-lo, tema da Aula 12.

Exercícios

1) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Uma ação apresenta os seguintes cenários para o próximo ano: retorno de −5% com probabilidade de 20%; retorno de 10% com probabilidade de 50%; e retorno de 20% com probabilidade de 30%. O retorno esperado dessa ação é de:

A) 10,0%.

B) 8,3%.

C) 12,5%.

D) 6,0%.

E) 25,0%.

2) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Um ativo tem dois cenários equiprováveis de retorno: 4% ou 16%. O retorno esperado e o desvio-padrão desse ativo são, respectivamente:

A) 10% e 6%.

B) 10% e 36%.

C) 12% e 6%.

D) 10% e 12%.

E) 8% e 4%.

3) (Inédita - estilo CESGRANRIO) O coeficiente de correlação entre os retornos de dois ativos financeiros pode assumir valores:

A) entre −1 e +1, indicando desde movimentos perfeitamente opostos até perfeitamente sincronizados.

B) entre 0 e +1, pois correlações negativas não existem em finanças.

C) entre 0% e 100%, como toda taxa.

D) apenas iguais a −1, 0 ou +1.

E) qualquer número real, sem limites.

4) (Inédita - estilo FGV) O benefício de redução de risco proporcionado pela diversificação entre dois ativos é máximo quando a correlação entre seus retornos é igual a:

A) −1.

B) +1.

C) 0.

D) +0,5.

E) qualquer valor, pois a correlação não interfere na diversificação.

5) (Inédita - estilo FGV) São exemplos de risco sistemático (não diversificável) e de risco não sistemático (diversificável), respectivamente:

A) uma elevação generalizada da taxa básica de juros e uma fraude contábil descoberta em uma companhia específica.

B) uma greve na fábrica de uma companhia e uma recessão global.

C) a perda de uma patente por uma empresa e o recall de um produto de outra.

D) uma pandemia global e uma crise cambial.

E) a queda do lucro de uma varejista e o incêndio no armazém de uma concorrente.

6) (Inédita - estilo CESGRANRIO) Dois ativos possuem, cada um, desvio-padrão de 20% ao ano. Combinados em uma carteira com 50% em cada, e sendo a correlação entre eles INFERIOR a +1, o desvio-padrão da carteira será:

A) inferior a 20%.

B) exatamente 20%.

C) superior a 20%.

D) igual a 40%.

E) igual a zero, qualquer que seja a correlação.

7) (Inédita - estilo CEBRASPE, julgue o item) Julgue o item: "Ao distribuir seus recursos por uma quantidade suficientemente grande de ações de diferentes setores, o investidor elimina integralmente o risco de sua carteira, incluindo o risco associado a recessões e a variações da taxa de juros."

( ) Certo ( ) Errado

8) (Inédita - estilo CEBRASPE, julgue o item) Julgue o item: "Quando a correlação entre os retornos de dois ativos é igual a +1, a diversificação entre eles não produz redução de risco, e o desvio-padrão da carteira corresponde à média ponderada dos desvios-padrão individuais."

( ) Certo ( ) Errado

Gabarito

1) A — E[R] = 0,20 × (−5) + 0,50 × 10 + 0,30 × 20 = −1 + 5 + 6 = 10%.

2) A — E[R] = 0,5 × 4 + 0,5 × 16 = 10%. Desvios: ±6 p.p.; variância = 0,5 × 36 + 0,5 × 36 = 36; desvio-padrão = √36 = 6%. A letra B confunde variância (36) com desvio-padrão — a pegadinha padrão do tema.

3) A — ρ vive entre −1 (espelho perfeito) e +1 (sincronia perfeita), passando pelo 0 (independência). É essa amplitude que torna a correlação o ingrediente secreto da diversificação.

4) A — Quanto menor a correlação, maior o benefício; no limite ρ = −1, os movimentos se cancelam e o risco pode ser zerado com os pesos certos (o par sorveteria × guarda-chuvas).

5) A — Sistemático atinge todos (juros, recessão, câmbio, pandemia); específico atinge um (fraude, greve, recall). As demais alternativas misturam as camadas ou trazem dois riscos do mesmo tipo.

6) A — Regra central da aula: com ρ < 1, o risco da carteira fica abaixo da média ponderada dos riscos (aqui, abaixo de 20%). Exatamente 20% só ocorreria com ρ = +1; zero exigiria ρ = −1 com pesos adequados.

7) Errado — A diversificação elimina o risco específico, mas o sistemático (recessão, juros) atinge todas as ações e permanece — é o piso irredutível da renda variável.

8) Certo — Com ρ = +1 não há cancelamento algum: a carteira balança como a média exata dos ativos. É o único caso em que a intuição ingênua ("risco da carteira = média dos riscos") está correta.