O relatório de sustentabilidade é o documento em que a empresa mostra como afeta o meio ambiente e a sociedade e como é governada.Enquanto as demonstrações financeiras respondem "quanto dinheiro a empresa ganhou?", o relatório de sustentabilidade responde "como a empresa gera esse dinheiro, que impactos causa e quais riscos ambientais, sociais e de governança podem afetar o seu resultado?".Por que o relatório de sustentabilidade existe?Durante muito tempo, as empresas foram avaliadas quase só pelo lucro, pelo patrimônio e pela geração de caixa. Mas os investidores perceberam que duas empresas com o mesmo lucro podem ter riscos completamente diferentes.Por exemplo: a Empresa A tem lucro de R$ 1 bilhão, emite muito carbono e tem histórico de acidentes ambientais; a Empresa B tem o mesmo lucro de R$ 1 bilhão, emissões controladas e baixa taxa de acidentes. Na DRE (Demonstração do Resultado do Exercício), as duas parecem iguais. O relatório de sustentabilidade mostra que não são: a Empresa A está mais exposta a multas, indenizações, novas regras sobre carbono e perda de reputação.Duas empresas têm lucro de R$ 1 bilhão; a A emite muito carbono e tem histórico de acidentes ambientais, a B não. O que essa comparação mostra?Gabarito: A DRE não capta riscos que podem reduzir o lucro futuro da A, como multas, indenizações e novas regras sobre carbono — a DRE mostra o resultado do período, não os riscos que ainda não viraram despesa. A última opção tenta, mas o relatório de sustentabilidade é um documento à parte e não altera a DRE.O conceito ESG (ou ASG)Hoje esses relatórios costumam seguir a lógica ESG, sigla em inglês de Environmental, Social and Governance. Em português usa-se também ASG: Ambiental, Social e Governança.Pilar ambiental (E em inglês, A em português)Mostra o impacto da empresa sobre o meio ambiente. Exemplos: emissões de gases de efeito estufa (medidas em toneladas de CO₂ equivalente); consumo de água; geração e descarte de resíduos; derramamentos; uso de energia renovável; recuperação de áreas degradadas.Uma petroleira como a Petrobras, por exemplo, divulga indicadores típicos do setor: toneladas de CO₂ equivalente emitidas, vazamentos de óleo, consumo de energia e intensidade de emissões (emissões por barril produzido).Pilar social (S)Mostra como a empresa se relaciona com as pessoas: funcionários, clientes, fornecedores e comunidades.Indicadores comuns são número de empregados, diversidade, participação feminina, acidentes de trabalho, horas de treinamento e investimentos sociais. Um relatório pode informar, por exemplo, que as mulheres ocupam 38% dos cargos de liderança ou que a empresa realizou 500 mil horas de treinamento no ano.Pilar governança (G)Mostra como a empresa é administrada: composição do conselho de administração, independência dos conselheiros, auditoria, combate à corrupção, ética e transparência.É nesta parte que o leitor descobre se existe auditoria independente, se há conselheiros independentes e se houve escândalos ou investigações recentes.Um relatório informa a proporção de conselheiros independentes no conselho de administração. A que pilar ESG esse indicador pertence?Gabarito: Governança — composição e independência do conselho dizem como a empresa é administrada. Social é tentador porque envolve pessoas, mas o pilar S trata da relação com empregados, clientes, fornecedores e comunidades.Diferença para a DVAA DVA (Demonstração do Valor Adicionado) mostra como a riqueza gerada foi distribuída entre empregados, governo, financiadores e acionistas. O relatório de sustentabilidade mostra como essa riqueza foi gerada e quais impactos essa geração causou. A DVA é uma demonstração contábil, obrigatória para as companhias abertas; o relatório de sustentabilidade é um relatório à parte, com regras próprias.O que os investidores observam?Emissões de carbonoOs investidores querem saber se a empresa está preparada para a transição energética: quanto emite, se tem metas de redução e quanto custaria se o carbono passasse a ser taxado.Acidentes operacionaisUma empresa pode ter lucro alto, mas, se registra explosões, derramamentos e mortes, carrega um risco que ainda não apareceu no resultado.Processos judiciaisO relatório costuma mostrar multas ambientais, contingências e conflitos com comunidades.Capital humanoAlguns investidores acompanham rotatividade, treinamento e retenção de talentos.DiversidadeFundos internacionais costumam analisar a presença de mulheres em cargos de liderança, a diversidade racial e as políticas de inclusão.Situações atípicas que chamam atençãoLucro crescendo e emissões crescendoPode indicar uma expansão pouco sustentável e risco regulatório no futuro.Poucos acidentes e muitos processosPode indicar problemas que não estão sendo registrados.ESG excelente e lucro fracoÀs vezes a empresa investe muito em sustentabilidade, mas ainda não gera retorno econômico adequado.ESG ruim e lucro altoPode parecer ótimo no curto prazo, mas pode gerar multas, restrições regulatórias e perda de reputação.Em três anos, o lucro de uma mineradora dobrou e as emissões de gases de efeito estufa também dobraram, sem nenhuma meta de redução. Qual a leitura mais prudente?Gabarito: Expansão pouco sustentável, com risco regulatório e de custo de carbono no futuro — crescer emitindo cada vez mais deixa a empresa exposta a taxação de carbono, multas e restrições. Não é greenwashing: greenwashing é parecer mais sustentável do que se é, e aqui os números ruins estão à vista.Críticas ao relatório de sustentabilidadeNem tudo é perfeito. Um dos maiores problemas é o chamado greenwashing: a empresa tenta parecer mais sustentável do que realmente é.Por exemplo, destaca pequenas ações ambientais e omite problemas relevantes.Por isso os investidores olham os indicadores quantitativos, verificam se o relatório passou por asseguração (a revisão por um auditor independente) e comparam os números com os de anos anteriores.Os padrões usados no relatórioOs relatórios estão ficando cada vez mais parecidos com as demonstrações financeiras: números, metas, comparação ano a ano e revisão por auditor. Veja aqui um exemplo de relatório de sustentabilidade da Petrobras.Para que os dados sejam comparáveis entre empresas, os relatórios seguem padrões internacionais. Os principais são:GRI (Global Reporting Initiative): o padrão mais usado no mundo. Foca nos impactos da empresa sobre a economia, o meio ambiente e as pessoas (a chamada materialidade de impacto). Hoje está organizado nas GRI Standards, cujos padrões universais foram revisados em 2021.ISSB (International Sustainability Standards Board): conselho criado em 2021 pela Fundação IFRS, a mesma que cuida das normas contábeis internacionais. Em junho de 2023 publicou a IFRS S1 (requisitos gerais) e a IFRS S2 (clima). O foco é o investidor: quais riscos e oportunidades de sustentabilidade podem afetar o caixa, o resultado e o valor da empresa (a materialidade financeira).SASB: padrões por setor que, desde 2022, são mantidos pelo próprio ISSB e servem de referência para aplicar a IFRS S1.GRI e ISSB não competem: muitas empresas usam os dois, porque respondem a perguntas diferentes (o impacto da empresa sobre o mundo e o impacto do mundo sobre a empresa).Um investidor quer saber como uma seca prolongada pode afetar o caixa e o valor de uma empresa de alimentos. Qual padrão foi desenhado para essa pergunta?Gabarito: IFRS S1 e S2 do ISSB, com foco na materialidade financeira — o ISSB olha o efeito dos temas de sustentabilidade sobre a empresa e o investidor. A GRI é a armadilha: ela olha o caminho inverso, o impacto da empresa sobre a economia, o meio ambiente e as pessoas.Como está a regra no BrasilNo Brasil, as normas do ISSB foram trazidas pelo CBPS (Comitê Brasileiro de Pronunciamentos de Sustentabilidade), criado pelo Conselho Federal de Contabilidade. Os pronunciamentos CBPS 01 (equivalente à IFRS S1) e CBPS 02 (equivalente à IFRS S2) foram aprovados pela CVM em outubro de 2024.O caminho da obrigatoriedade mudou mais de uma vez:NormaO que determinouResolução CVM 193/2023Adoção voluntária do relatório no padrão ISSB a partir dos exercícios de 2024, e obrigatória para as companhias abertas a partir dos exercícios iniciados em 1º de janeiro de 2026.Resoluções CVM 217 e 218/2024Aprovaram o CBPS 01 e o CBPS 02 como as normas a seguir.Resolução CVM 244/2026 (29/05/2026)Revogou a obrigatoriedade antes de ela começar: o relatório passou a ser voluntário, inclusive para os exercícios de 2026.Como fica a regra hoje:A companhia aberta que optar por divulgar segue o CBPS 01 e o CBPS 02, declara de forma explícita a aderência a essas normas, arquiva o relatório na CVM e o submete a asseguração por auditor independente.Quem começa a divulgar tem de manter a divulgação por pelo menos três exercícios seguidos; para parar, precisa avisar o mercado com um exercício de antecedência.A partir de 1º de janeiro de 2027, a companhia aberta que optar por não arquivar o relatório terá de explicar os motivos em comunicado ao mercado, até a data de entrega das demonstrações financeiras anuais. É o modelo "pratique ou explique".Ou seja: o relatório no padrão ISSB não é obrigatório, mas deixar de fazê-lo passa a exigir justificativa pública. Fora desse relatório, muitas empresas continuam publicando relatórios no padrão GRI por conta própria, sem exigência legal.Em 2027, uma companhia aberta brasileira decide não arquivar o relatório de sustentabilidade no padrão ISSB. Pela Resolução CVM 193, com a redação da Resolução CVM 244/2026, o que ela deve fazer?Gabarito: Explicar os motivos em comunicado ao mercado até a data de arquivamento das demonstrações financeiras anuais — a partir de 1º de janeiro de 2027 vale o modelo pratique ou explique. Nada é a resposta tentadora, porque o relatório deixou de ser obrigatório, mas deixar de fazê-lo exige justificativa pública.O que um investidor experiente procura?Ele normalmente cruza as informações:RelatórioPerguntaDREQuanto lucrou?Fluxo de CaixaGerou caixa?BalançoEstá saudável?DVAQuem recebeu a riqueza?SustentabilidadeQuais riscos ambientais, sociais e de governança existem?Por isso o relatório de sustentabilidade não substitui as demonstrações financeiras. Ele complementa a análise, ajudando a responder se os resultados da empresa são sustentáveis no longo prazo e quais riscos podem afetar seus lucros futuros.Exercícios1) (CESGRANRIO - 2023 - Transpetro - Profissional Transpetro de Nível Superior - Junior: Ênfase 1: Administração) O padrão de relatório de sustentabilidade mais usado no mundo é o da GRI (Global Reporting Initiative), cujo objetivo é disseminar nas organizações a prática de medir o seu desempenho em termos ambientais, sociais e econômicos, divulgando os resultados como forma de prestação de contas à sociedade.As diretrizes para a elaboração de relatórios de sustentabilidade propostas pela GRI são formadas por duas categorias de princípios, que são:A) princípios para distribuição de lucros e princípios para definição da alocação de investimentos.B) princípios para preservação da imagem da organização e princípios para atendimento às leis.C) princípios para garantir a lucratividade da organização e princípios para tratamento de crises.D) princípios para controle da publicidade da organização e princípios para apresentação de resultados.E) princípios para definir o conteúdo do relatório e princípios para assegurar a qualidade da informação.2) (FGV - 2015 - CODEMIG - Contador Corporativo) Os administradores da Ômicron S.A. desejam publicar, em conjunto, o relatório da administração, as demonstrações contábeis e o relatório de sustentabilidade da companhia, no jornal de maior circulação no município onde ela está sediada. De acordo com as práticas contábeis adotadas no Brasil, a companhia deverá:A) Adotar critérios de reconhecimento, mensuração e divulgação consistentes entre as demonstrações contábeis e os demais relatórios;B) identificar claramente e distinguir as demonstrações contábeis dos demais relatórios;C) abranger o mesmo período de tempo das demonstrações contábeis nos demais relatórios;D) declarar que as demonstrações contábeis e os demais relatórios estão em conformidade com as práticas contábeis adotadas no Brasil;E) divulgar suas demonstrações contábeis em documento distinto dos demais relatórios.Gabarito1) E. A divisão em princípios de conteúdo e princípios de qualidade é a das diretrizes G3 e G4 da GRI, em que a questão se baseia. Nas GRI Standards atuais (revisão de 2021), essa divisão deixou de existir: há uma lista única de oito princípios (exatidão, equilíbrio, clareza, comparabilidade, completude, contexto de sustentabilidade, tempestividade e verificabilidade).2) B. O CPC 26 (Apresentação das Demonstrações Contábeis) exige que as demonstrações contábeis sejam claramente identificadas e distinguidas de outras informações publicadas no mesmo documento.
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