O surgimento da Contabilidade: sua história e o desenvolvimento humano

, updated 00Comment iconComment iconComment iconComment icon

Este artigo pretende explicar os antecedentes culturais relacionados ao surgimento da Contabilidade

Edit Article

A evolução da Contabilidade: da Pré-história às normas internacionais

A Contabilidade nasceu antes da escrita

Quando pensamos em Contabilidade, normalmente imaginamos planilhas, computadores e balanços patrimoniais. Entretanto, ela é muito mais antiga que a própria escrita.

Muito antes da invenção dos números, da moeda e dos alfabetos, o ser humano já precisava controlar seu patrimônio. Imagine um pastor há aproximadamente 9.000 anos. Todos os dias ele entregava parte de seu rebanho para outro pastor cuidar. Como garantir que receberia exatamente a mesma quantidade de animais no futuro? Como provar quem era o proprietário? Como registrar uma dívida?

Sem papel, sem escrita e sem números, era necessário criar outra forma de controle. Foi assim que surgiram as fichas de barro (tokens), encontradas por arqueólogos na Mesopotâmia, Síria, Turquia, Irã e Israel. Esses pequenos objetos de barro espalhados por várias partes na Terra eram moldados a mão e endurecidos com calor, medindo de 1 a 4 centímetros. Em sítios arqueológicos de Jarmo, Iraque, foram encontradas mais de 1.500 fichas datadas de 6500 a.C.

Como eram as fichas de barro
Como eram as fichas de barro

Cada ficha representava um bem: uma ovelha; um saco de trigo; um vaso de azeite; uma quantidade de grãos. Essas fichas eram guardadas dentro de recipientes de barro chamados bullae, funcionando como verdadeiros "cofres de registros". Sempre que ocorria uma negociação, uma ficha mudava de recipiente.

Em outras palavras, já existia um controle patrimonial. Não era uma contabilidade financeira como conhecemos hoje, mas já havia registro de: bens; proprietários; dívidas; transferências.

A necessidade de controlar patrimônio acabou impulsionando o desenvolvimento da escrita e dos números. Por isso muitos historiadores afirmam que a Contabilidade ajudou a criar a própria civilização.

A evolução da contagem

O processo evoluiu em três grandes fases.

1. Correspondência um a um

A primeira fase envolvia a combinação de um sinal (por exemplo: um Osso, uma concha do mar) com uma mercadoria (um carneiro, uma medida de grão, um coco), repetindo-se o sinal para cada unidade adicional do produto.

2. Contagem concreta

A segunda fase, a contagem concreta, caracterizava-se pelo relacionamento de fichas concretas (ou outros objetos similares) com palavras que representavam números específicos. Algumas expressões, como uma dupla, uma braça, um par, indicavam o número dois, mas não necessariamente poderiam ser usadas em todas as situações. Na contagem concreta identificava-se um conjunto de palavras ou fichas com um conjunto de coisas específicas. A noção de cardinalidade (medida de grandeza sem referência à ordem de sucessão) foi introduzida nessa fase. Essa contagem estava limitada a um escore de objetos.

3. Contagem abstrata

A última fase da evolução da contagem caracterizou-se pelo desenvolvimento dos símbolos numéricos, liberando a contagem de um conjunto específico de coisas, criando números gerais suficientes para a contagem de qualquer coisa e a noção abstrata de um, dois, três etc. A Contabilidade ganhou velocidade e precisão.

O nascimento das partidas dobradas

Durante muitos séculos o comércio ficou restrito. Entretanto, entre os séculos XII e XV, cidades italianas como: Veneza; Gênova; Florença; e Pisa tornaram-se grandes centros comerciais. Mercadorias eram vendidas para diversos países. Começaram a surgir: empréstimos; sociedades comerciais; investimentos; e financiamentos.

A simples anotação das vendas deixou de ser suficiente. Era necessário controlar quem devia; quem recebia; quanto existia em caixa; quanto havia em estoque; qual era o lucro. Nasceu então o método das Partidas Dobradas. Seu princípio continua sendo utilizado até hoje.

“Todo fato contábil possui duas faces.”

- Partidas Dobradas

Se algo entra, algo sai. Se um ativo aumenta, outro elemento também deve sofrer alteração. Por isso Total dos Débitos = Total dos Créditos. Sempre.

Exemplo: Imagine uma mercadoria com custo de R$ 400,00 e foi revendida por R$ 600,00 à vista. Veja quais são os lançamentos a serem efetuados:

Conta Caixa (Ativo): Débito de R$ 600,00 – entrada de numerários;

Conta Receita: Crédito de R$ 600,00 – registro de faturamento;

Conta Despesa: Débito de R$ 400,00 – valor do produto revendido;

Conta Estoque (Ativo): Crédito de R$ 400,00 – baixa de estoque no valor de custo do ativo.

Viu só que, no final das contas, o total de débito é sempre igual ao somatório dos créditos?

Luca Pacioli e a consolidação da Contabilidade

Embora o método já fosse utilizado por comerciantes italianos, foi o matemático e frade franciscano Luca Pacioli quem o organizou e publicou em 1494 na obra Summa de Arithmetica, Geometria, Proportioni et Proportionalità. Por esse motivo, Luca Pacioli é conhecido como o Pai da Contabilidade Moderna. É importante destacar que ele não inventou as partidas dobradas. Seu mérito foi sistematizar e divulgar o método.

A Revolução Industrial

A partir de 1760 a Revolução Industrial mudou completamente a Contabilidade. Agora existiam grandes fábricas; milhares de funcionários; máquinas; estoques enormes; e investidores.

A Contabilidade passou a fornecer informações para administrar empresas, calcular custos, controlar estoques e medir lucros. Nesse período nasce a Contabilidade de Custos.

A profissão Contador moderna tem suas raízes na Escócia em meados de 1800, quando o Instituto de Contadores de Glasgow solicitou à Rainha Vitória uma Carta Real, para que os contadores pudessem se distinguir dos advogados, já que por muito tempo os contadores pertenceram a associações de advogados que ofereceria contabilidade além dos serviços jurídicos de uma empresa. Em 1854, o instituto adotou o "contador credenciado" para seus membros, um termo e uma demarcação que ainda hoje tem peso legal em todo o mundo.

A petição foi assinada por 49 contadores de Glasgow e argumentou que a profissão contábil existe há muito tempo na Escócia como uma profissão distinta de grande respeitabilidade e que o pequeno número de praticantes está aumentando rapidamente. A petição destacou ainda as diversas habilidades exigidas para ser um contador profissional – além das habilidades matemáticas, um contador precisa estar familiarizado com os princípios jurídicos gerais, já que muitas vezes eles são empregados pelos tribunais para depor sobre questões financeiras – como eles ainda são hoje.

A evolução da Contabilidade no Brasil

Durante o período colonial, o Brasil utilizava integralmente as normas contábeis portuguesas. Os registros eram extremamente simples e tinham como principal objetivo controlar a arrecadação de impostos da Coroa Portuguesa. Com a chegada da Família Real em 1808, iniciou-se uma reorganização administrativa. Foram criados órgãos fazendários; tesourarias; tribunais; maior controle das receitas públicas.

Ao longo do século XIX surgiram as primeiras escolas de comércio e os primeiros profissionais especializados em escrituração mercantil.

O Código Comercial de 1850

Um marco importante foi a promulgação do Código Comercial Brasileiro (Lei nº 556/1850). Esse código tornou obrigatória a escrituração mercantil para comerciantes. Passaram a existir livros obrigatórios, como Livro Diário; Livro Razão (posteriormente difundido); e livros auxiliares.

Foi um dos primeiros passos rumo à profissionalização da Contabilidade brasileira.

A regulamentação da profissão no Brasil

Outro grande avanço ocorreu em 1946. Foi criado o Conselho Federal de Contabilidade por meio do Decreto-Lei nº 9.295. A partir daí a profissão passou a ser oficialmente regulamentada. Também foram criados os Conselhos Regionais de Contabilidade (CRCs). Hoje, apenas profissionais registrados no CRC podem exercer legalmente a profissão de contador.

A Lei das Sociedades por Ações

Em 1976 foi publicada a Lei nº 6.404. Ela revolucionou a Contabilidade brasileira. Entre suas contribuições estão estrutura das demonstrações financeiras; regras para avaliação patrimonial; divulgação obrigatória das demonstrações; maior transparência para investidores. Durante muitos anos essa lei serviu como principal referência da contabilidade societária brasileira.

A convergência às normas internacionais (IFRS)

Até o início dos anos 2000, cada país possuía suas próprias regras contábeis. Isso dificultava comparar empresas de diferentes países. Imagine comparar uma empresa brasileira com uma japonesa se cada uma utilizasse critérios completamente diferentes para avaliar estoques, imóveis e receitas. Para resolver esse problema surgiu o padrão internacional conhecido como IFRS (International Financial Reporting Standards).

Seu objetivo é criar uma linguagem contábil comum para o mundo.

A Lei 11.638/2007

No Brasil, a grande mudança ocorreu com a Lei nº 11.638. Ela alterou profundamente a Lei das Sociedades por Ações. Entre as principais mudanças: aproximação das normas brasileiras ao IFRS; novas regras para ativos e passivos; teste de recuperabilidade (impairment); maior transparência das demonstrações financeiras; novas exigências de divulgação.

Essa lei marcou a entrada definitiva do Brasil no processo de harmonização internacional.

O Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC)

Em 2005 foi criado o Comitê de Pronunciamentos Contábeis. O CPC possui uma função muito importante. Ele traduz e adapta as normas internacionais (IFRS) para a realidade brasileira. Essas normas recebem o nome de Pronunciamentos Técnicos do CPC.

Depois de aprovadas, elas passam a ser adotadas pelos órgãos reguladores brasileiros, com Comissão de Valores Mobiliários; Banco Central do Brasil; Superintendência de Seguros Privados; Conselho Federal de Contabilidade.

Como funciona o sistema contábil brasileiro atualmente

Hoje a Contabilidade brasileira segue uma estrutura integrada.

IFRS (Normas Internacionais)

CPC (Pronunciamentos Brasileiros)

Órgãos Reguladores (CVM, Banco Central, SUSEP e CFC)

Empresas

Isso permite que investidores brasileiros e estrangeiros interpretem demonstrações financeiras utilizando praticamente a mesma linguagem contábil.

Por que isso é importante para o administrador?

O administrador moderno não precisa dominar todos os lançamentos contábeis, mas precisa compreender as informações geradas pela Contabilidade para tomar decisões.

A partir das demonstrações financeiras, ele pode responder perguntas estratégicas, como:

* A empresa está dando lucro ou prejuízo?

* O caixa é suficiente para pagar as obrigações?

* O endividamento está sob controle?

* Os estoques estão excessivos?

* A empresa gera retorno suficiente para seus investidores?

* É o momento adequado para expandir ou reduzir operações?

Em outras palavras, a Contabilidade deixou de ser apenas um sistema de registro e tornou-se uma das principais ferramentas de gestão, governança e tomada de decisão nas organizações. Esse é o enfoque que será adotado ao longo deste curso: utilizar a Contabilidade como instrumento para compreender a situação econômica e financeira das empresas e apoiar decisões gerenciais fundamentadas.